Tuesday, October 31, 2006

gatos entre paginas
De repente estalas os dedos e aparece um gato, não parece ter sido assim que apareceu o mundo, mas acredito que cada um tenha uma fórmula pessoal e credivel para fazer surgir do nada ou do que se julgue mais insignificante um mistério ou algo tão prodigioso como um dia de chuva num domingo incolor. Que faria um gato num dia de chuva saido dos teus dedos tremulos andando aos zigzagues na folha amarrotada? Sabes que essas criaturas andam nos telhados, cada um tem o corpo que o destino lhe deu ou a habilidade que mais se ajuste ao circo da vida. Há quanto tempo andas instavel, sabes o motivo que faz os gatos e os ratos e as serpentes sacudirem as pedras e tentarem aparecer no sonho dos homens? Não sabes... é estupido o que vais dizer, não acreditares no amor porque o vento levou todas as pétalas da tua flor, um caminho de espinhos parece um limite incontornavél mas se olhares o teu sorriso quanta porção de coisas importantes escondes, quanta mentira impões á tua natureza. Não creio que seja a serpente que mata, és tu que o fazes porque não sabes habitar o seu mundo, não tomas cuidado até onde podes ir e a todo o lado podes ir com precaução. A tua fantazia, toda ela dentro de uma chavena de chá, não julguem que o trabalho dos pintores, artistas e contadores de histórias, não é uma coisa séria e respeitavel, são estas coisas que fazem com que o homem não imite o leão que devora o veado. Não está comprovado se o leão come o veado por ter fome ou por não o suportar. A filosofia não é um pacote de bolachas, enquanto rezavas apareceu o gato a espreitar sorrateiramente da cortina, os gatos das folhas de papel sabem rezar, e tu abres a boca como se o mundo tivesse sido criado com espanto, que surpresas nos reservam o mundo animal, imaginas as nações unidas dos ruminantes, dos roedores, dos abutres, não sei se o mundo assim fica mais lógico mas também assim como está precisa de concerto. Mostra-me as tuas mãos, olho-as como se me olhasse a um espelho e me quizesse certificar da minha aparencia, para cada situação uma respiração, uma roupa, somos todos loucos, todos fingimos um papel, precisamos de uma certa quantidade de ego para que não seja demasiado caotica a nossa existência. Vou afirmar mais uma vez que gosto dos teus gatos, parecem-se muito aos gatos de um certo pintor catalão, gatos infantis que andam á chuva e se são pretos parece que os vamos encontrar na guerra ou no funeral da nossa avó. Tu deixas-te cair para trás, lembro-me desse exercicio teatral, tu tocavas-me o rosto, escrevias-me no rosto muito suavemente e na sala a musica do filme e a mulher de todos os homens e os homens conservadores a tentar boa impressão com a entoação banal do amor livre. Apanho-te a conversar com um gato, os dois sentados numa cadeira de palha, gostas de xadrez e de um charuto depois do jantar, estas comodidades muito bem imaginadas graças ao esforço que a pobreza provoca na nossa capacidade empreendedora. Aquele pintor que como tu, pinta estrelas e gatos e que põe bailarinas e poetas afogados no azul e no amarelo ele que vagueia ainda nas ruas, que se tranforma em sete vidas, em tantas cores, muitas perguntas, tantas que vai ser dificil voar... não chores, repara no gato que está ao teu colo, podes fingir que tens a existência sentada ao teu colo, ajoelha-te e pede-lhe perdão pelos teus pecados, não permitas que a dor te tape os olhos, o sofrimento não é uma diversão, não estás na lista de espera para trabalhares como um santo no céu. Não estás no céu, nem estás numa pastelaria a mexer a massa dos bolos, nem julgueis que se deixares de ser a harmonia que há no céu e na terra, no cão e no gato, no barro que faz o criador e que lhe coze a palavra, porque aalma dos homens é um forno a lenha e sabe muito bem comer o pão no forno daalma dos homens e sabe ainda melhor rezar os salmos e ouvir os sinos na torre e tu pões as tuas mãos á volta do meu pescoço. A minha vida também precisa de concerto, a minha vida parece um armário desaparafuzado. Que achas que posso fazer? Dona Maria Das dores uma espírita encarnando a escumalha dos suburbios, pessoa vérsatil em ciencias e bolsos ocultos, não tem sorte com a minha desgraça, tenho o azar de ser muito pobre e a sorte de não ser, nem assim tão rico, nem assim tão estupido. Há pessoas muito dentro das coisas, muito elevadas no saber, na consciencia e na pureza da alma. Aquele que desenhar como uma criança mesmo que tenha um passado criminoso ou que aindasejao mais feio homem das cavernas se desenhar como as crianças será curado de todas as doenças e de todas as alergias, isto também vem escrito no salmo dos gatos, na parabola do senhor aos roedores do templo. Aquele que tiver um queijo e não o dividir mesmo que o tal seja muito pequeno e a fome muito grande não será digno de uma casa limpa, viverá entre os vermes e será lançado no lixo do mundo para todo o sempre. Os roedores do templo não escutaram estas ensinanças, tinham as orelhas tapadas com bocados de queijo. Tu estás sentada perto do fogo, olhas muito fixamente para mim, queres perguntar-me algo com os olhos, depois perguntas se tenho medo de ti? És esquizofrenica paranoica, o teu marido é um pouco violento quando bebe, tu pedes-me um cigarro, digo-te que não fumo e tu mais uma vez revelas que só sabes fazer gatos e anjos e também gostas de fazer pessoas. Houve momentos que fazias os teus poemas mas a tua mão treme e tu que não sabes guiar as palavras ficas a olhar em volta como se as palavras andassem de mesa em mesa como se esse modo que tens de me olhar os olhos fosse uma história, um acontecimento, uma noticia da vida que é dos outros mas nós gostariamos que fosse nossa porque pensamos sempre que a nossa vida é a mais vazia. Não sabemos de que coisas falam os pássaros, se eles tivessem a vida tão vazia como nós julgamos ter a nossa, nós e eles seriamos feitos da mesma conversa e da mesma rotina, nós e eles no linho dos mesmos lençois nos deitariamos. Certo que somos pobres, mas é mais a pobreza de o pensarmos, não nos faz bem a resignação, tu de cabeça cabisbaixa acendes uma vela, há a sombra do gato a trepar a parede, tu mostras-me os teus desenhos, num certo sentido são muito adultos, não sei explicar muito bem, pareces uma criança a tentar ser a vida demasiado responsavel e no entanto eu imagino o gato dos teus desenhos ou o gato dos telhados ocupados nos seus negócios. Tu estás nua dentro da tua casa e do teu quarto, o espaço que habitas é uma roupa, vejo-te da minha janela, com os meus olhos acrescento outras linhas ás arestas que o contornam. De repente estalas os dedos e aparece um gato, não parece ter sido assim que apareceu o mundo, mas acredito que cada um tenha uma fórmula pessoal e credivel para fazer surgir do nada ou do que se julgue mais insignificante um mistério ou algo tão prodigioso como um dia de chuva num domingo incolor. Que faria um gato num dia de chuva saido dos teus dedos tremulos andando aos zigzagues na folha amarrotada? Sabes que essas criaturas andam nos telhados, cada um tem o corpo que o destino lhe deu ou a habilidade que mais se ajuste ao circo da vida. Há quanto tempo andas instavel, sabes o motivo que faz os gatos e os ratos e as serpentes sacudirem as pedras e tentarem aparecer no sonho dos homens? Não sabes... é estupido o que vais dizer, não acreditares no amor porque o vento levou todas as pétalas da tua flor, um caminho de espinhos parece um limite incontornavél mas se olhares o teu sorriso quanta porção de coisas importantes escondes, quanta mentira impões á tua natureza. Não creio que seja a serpente que mata, és tu que o fazes porque não sabes habitar o seu mundo, não tomas cuidado até onde podes ir e a todo o lado podes ir com precaução. A tua fantazia, toda ela dentro de uma chavena de chá, não julguem que o trabalho dos pintores, artistas e contadores de histórias, não é uma coisa séria e respeitavel, são estas coisas que fazem com que o homem não imite o leão que devora o veado. Não está comprovado se o leão come o veado por ter fome ou por não o suportar. A filosofia não é um pacote de bolachas, enquanto rezavas apareceu o gato a espreitar sorrateiramente da cortina, os gatos das folhas de papel sabem rezar, e tu abres a boca como se o mundo tivesse sido criado com espanto, que surpresas nos reservam o mundo animal, imaginas as nações unidas dos ruminantes, dos roedores, dos abutres, não sei se o mundo assim fica mais lógico mas também assim como está precisa de concerto. Mostra-me as tuas mãos, olho-as como se me olhasse a um espelho e me quizesse certificar da minha aparencia, para cada situação uma respiração, uma roupa, somos todos loucos, todos fingimos um papel, precisamos de uma certa quantidade de ego para que não seja demasiado caotica a nossa existência. Vou afirmar mais uma vez que gosto dos teus gatos, parecem-se muito aos gatos de um certo pintor catalão, gatos infantis que andam á chuva e se são pretos parece que os vamos encontrar na guerra ou no funeral da nossa avó. Tu deixas-te cair para trás, lembro-me desse exercicio teatral, tu tocavas-me o rosto, escrevias-me no rosto muito suavemente e na sala a musica do filme e a mulher de todos os homens e os homens conservadores a tentar boa impressão com a entoação banal do amor livre. Apanho-te a conversar com um gato, os dois sentados numa cadeira de palha, gostas de xadrez e de um charuto depois do jantar, estas comodidades muito bem imaginadas graças ao esforço que a pobreza provoca na nossa capacidade empreendedora. Aquele pintor que como tu, pinta estrelas e gatos e que põe bailarinas e poetas afogados no azul e no amarelo ele que vagueia ainda nas ruas, que se tranforma em sete vidas, em tantas cores, muitas perguntas, tantas que vai ser dificil voar... não chores, repara no gato que está ao teu colo, podes fingir que tens a existência sentada ao teu colo, ajoelha-te e pede-lhe perdão pelos teus pecados, não permitas que a dor te tape os olhos, o sofrimento não é uma diversão, não estás na lista de espera para trabalhares como um santo no céu. Não estás no céu, nem estás numa pastelaria a mexer a massa dos bolos, nem julgueis que se deixares de ser a harmonia que há no céu e na terra, no cão e no gato, no barro que faz o criador e que lhe coze a palavra, porque aalma dos homens é um forno a lenha e sabe muito bem comer o pão no forno daalma dos homens e sabe ainda melhor rezar os salmos e ouvir os sinos na torre e tu pões as tuas mãos á volta do meu pescoço. A minha vida também precisa de concerto, a minha vida parece um armário desaparafuzado. Que achas que posso fazer? Dona Maria Das dores uma espírita encarnando a escumalha dos suburbios, pessoa vérsatil em ciencias e bolsos ocultos, não tem sorte com a minha desgraça, tenho o azar de ser muito pobre e a sorte de não ser, nem assim tão rico, nem assim tão estupido. Há pessoas muito dentro das coisas, muito elevadas no saber, na consciencia e na pureza da alma. Aquele que desenhar como uma criança mesmo que tenha um passado criminoso ou que aindasejao mais feio homem das cavernas se desenhar como as crianças será curado de todas as doenças e de todas as alergias, isto também vem escrito no salmo dos gatos, na parabola do senhor aos roedores do templo. Aquele que tiver um queijo e não o dividir mesmo que o tal seja muito pequeno e a fome muito grande não será digno de uma casa limpa, viverá entre os vermes e será lançado no lixo do mundo para todo o sempre. Os roedores do templo não escutaram estas ensinanças, tinham as orelhas tapadas com bocados de queijo. Tu estás sentada perto do fogo, olhas muito fixamente para mim, queres perguntar-me algo com os olhos, depois perguntas se tenho medo de ti? És esquizofrenica paranoica, o teu marido é um pouco violento quando bebe, tu pedes-me um cigarro, digo-te que não fumo e tu mais uma vez revelas que só sabes fazer gatos e anjos e também gostas de fazer pessoas. Houve momentos que fazias os teus poemas mas a tua mão treme e tu que não sabes guiar as palavras ficas a olhar em volta como se as palavras andassem de mesa em mesa como se esse modo que tens de me olhar os olhos fosse uma história, um acontecimento, uma noticia da vida que é dos outros mas nós gostariamos que fosse nossa porque pensamos sempre que a nossa vida é a mais vazia. Não sabemos de que coisas falam os pássaros, se eles tivessem a vida tão vazia como nós julgamos ter a nossa, nós e eles seriamos feitos da mesma conversa e da mesma rotina, nós e eles no linho dos mesmos lençois nos deitariamos. Certo que somos pobres, mas é mais a pobreza de o pensarmos, não nos faz bem a resignação, tu de cabeça cabisbaixa acendes uma vela, há a sombra do gato a trepar a parede, tu mostras-me os teus desenhos, num certo sentido são muito adultos, não sei explicar muito bem, pareces uma criança a tentar ser a vida demasiado responsavel e no entanto eu imagino o gato dos teus desenhos ou o gato dos telhados ocupados nos seus negócios. Tu estás nua dentro da tua casa e do teu quarto, o espaço que habitas é uma roupa, vejo-te da minha janela, com os meus olhos acrescento outras linhas ás arestas que o contornam. Outro dia houve uma inundação na rua onde moras, moras num bairro judeu, és a unica negra que lá habita, a tua avó costuma dizer que os Judeus cheiram a dinheiro, a tua avó sabe das vidas dos que emigraram para o continente Americano, das coisas que houve faz uma história de encantar, as partes tristes ficam na emoção acentuada das palavras, nem sempre essas palavras são verdadeiras, mas a poesia também é subjectiva como os teus gatos na folha de papel,os gatos no discurso politico, nas conversas antigas de namoro á janela. Os teus pensamentos, a importância pessoal deles é que seguram os teus pés, não vais ficar em desconforto, precisas de uma estrutura na tua vida, de uma convicção que sustente a tua razão como os ossos que não deixam cair o teu corpo. Tu tens de afirmar a tua verdade pessoal, tens de vencer essa angustia, quando estás angustiada vestes um personagem sem papel, tu pareces um gato com muitas vidas, tu não consegues tomar conta desse barco. Que é o amor? Não sei se o barco levou o amor, não sei se abris-te as mãos e fizes-te de propósito para ele fugir. Gritas, os teus pulmões estão cheios, as guerras duram há tanto tempo e tu ainda não encontras-te a expressão adequada para a tua revolta. Ela pensa que é um anjo; Na verdade ser se anjo não é doença nenhuma. A doença do mundo é haver falta de de sonhos, de paixões fortes, de enganos tão absolutos como verdades sem discussão. Não quero discutir se és um anjo, não é por isso que vou deixar de guardar o melhor gosto, nunca se sabe quanto tempo fica, ter algum poder é melhor que não tentar nada. Ela declarou-me o seu amor impossivel. Estava preocupada. Perguntei-lhe se tomava os medicamentos, reparei que estava com muito medo, tomou a minha mão, com a outra desenhou na folha do caderno um anjo.
o nosso amor vai ter de acabar! Estas foram as suas palavras, havia nelas uma entoação triste. ela perguntou-me o que pensava eu da maldade humana? Não tenho respostas para me vestir, fica a saber que eu não sou uma máquina, não serve de nada ficar na margem e não ter uma onda forte, também preciso de quem leia o meu grito. O amor tem a porta aberta ou o amor é a direcção que eu ainda não tenho. Quero muito aprender, não faz mal se tu renunciares, há muito tempo que preciso de renunciar a certos gostos que não me ficam na lingua que isso me vai fazer sentir mais em união. Existem os paraisos do engano, os que proclamam a verdade absoluta ou o amor eterno, afirmar que não nos vamos perder, que tudo está garantido... e que espaço ainda fica para sermos livres, vai embora, ter-te conhecido foi uma armadilha, ameaçaram-me de morte e eu sei agora que a solidão é uma protecção, fica longe, não quero mais os teus gatos e os teus anjos, vou subir na árvore e ficar anónimo. Regressei ao meu estado solitário, as linhas que escrevo não são para ti. Olho as mães que levam as crianças á creche e que as esquecem. Cheira a pão e a pneus queimados. Penso na colorida praça de palermo e nos juizes mortos pela mafia, há criminosos mortos sem distinção. Vai-te embora, não sou o cristo das tuas visões... não vou deixar que me leves á praça publica, agora vou ficar tomando atenção ao ceu. Oiço o galo cantar e em procissão passa o meu corpo e eu sigo o meu corpo e o vento que lhe sopra. A rapariga do cinema está no cortejo, tudo parece um filme, sou um ser anónimo e é uma sensação sem definição certa. Vou sentar-me no chão, por mim passa o homem cego e o cão, passa uma fila de ciclistas e as mulheres da vida perfiladas no passeio, não quero saber de nada, não há nada pior que um crime misturado com a chuva, voltar a nascer tem de ser uma coisa muito bem pensada, é melhor ficar por aqui, não pretendo ficar conhecido, a minha fotografia no jornal não gostaria de ver, sou um ser invisivel, hei-de ter o meu lugar na rua e na mesa, hei-de ter o meu lugar nos sonhos e nas aspirações. Vou merecer um amor digno... Nos dias em que não apetece vou deixar-me ir. A poesia acontece assim, fria como um fio de navalha. É possivel fugir, voce quer resolver esse enigma, não causa espanto a sujidade dessas almas. Como são pobres os que habitam a aldeia do lugar comum. É verdade que uma pessoa nunca se prepara e por isso a morte chega sem avisar. Nós somos como as vacas levadas ao matadouro, no momento em que descobrimos o melhor pasto há-de haver uma faca a esquartejar-nos. Você insiste na mesma pergunta: Se acredito no amor, o amor é como o gato que pode cair do telhado. Olhe parece que inventei um proverbio, fique sabendo que as minhas duvidas são do tamanho de um monte de palha, você acende um fosforo e arde tudo

Sunday, April 30, 2006


Vais começar a voar. Na margem do rio inicias-te o exercício do voar. Voar não é apenas um dom, é uma forma de educação, de conhecimento espiritual. Nós guardamos este conhecimento nos sonhos. Anjos e pássaros voam, além destes as máquinas e o peso não é uma desculpa para não se voar. Nós não voamos porque o peso nos prende á terra, nós criámos raizes , voar é uma capacidade, não é por si uma coisa importante. Sentir os pés no chão, o calor e o frio, ter a sensação da energia a fluir sem ficar preso ou dependente deixa-nos espaço e liberdade para decidir e para transformar. Foste até ao jardim de Gautama , com o matemático aprendeste as formulas matemáticas , com o agricultor as épocas de cultivo e com o teu silencio interior a escutar a chuva e a meditar. Meditar com as folhas de ch á o teu corpo e a tua mente flutuam na á gua, os cheiros dos frutos e das ervas entram em ti enquanto ficas ocupada a espalhar o fumo na sala onde era costume o buda repousar ou simplesmente ficar no estado de não existência. Preparas o chá o vento bebe-o, a terra também absorve gota a gota o fogo e a á gua do ch á
No jardim de Gautama há uma erva, no mercado da aldeia há um homem que vende dessa erva. Antes de fazeres o exercício da arte do voar tu respiras os seus vapores, ficas imóvel e vês o Gautama a caminhar para ti.
Tu não queres fazer a conversa comum mas a conversa comum, o rio que corre, o sol que brilha, a nuvem que passa, a criança que nasce, a vida a morte. Gautama vai sorrir e os olhos abertos dele vão saudar os teus.
- Bom dia
- Está a chover.
A água e a terra são irmãs.
- Venerável gautama pensas que com a água e a terra posso aprender a formula do voar?
- A capacidade de voar est á em ti, es tu. Voar é reter a natureza nos olhos, é ficar com ela é ir alem dela, é ficar sem exigir nada.
- Hoje estive no mercado, andava por lá um comerciante de chás quando era criança gostava de olhar a cor das folhas e a cor amarela da á gua do ch á recordava-me o rio amarelo e as suas histórias e canções. gostava de adormecer com a cabeça deitada nos seixos e de ouvir o meu irmão mais velho a recitar os mantras enquanto chapinhava nas poças. A água a saltar era o sorriso dele a molhar-me os pés.
- Sabes! A á gua cristalina ó sorriso do Buda das cinco ervas.
- E quem é o Buda das cinco ervas?!

- O Buda das cinco ervas é o comerciante que viste no mercado.
- Mas buda não tem o caminho do negócio.
- Os nomes das coisas são só o nome das coisas, buda tem o caminho da abundância , do negócio prospero do coração, não h á o bom e o mau fruto, nem a boa e a m á árvore, h á o fruto que o teu sabor precisa, h á a á rvore que espera o viajante, o peregrino, o pastor, o negociante, o generoso e o avarento.- Vou preparar um chá- Faz um chá de folha de figueira, tritura bem as folhas, estas devem ficar pequenas como as gotas de chuva, depois fazemos a oração do chá e lemos os salmos do Buda das cinco ervas.- Vou ferver a á gua, olhar a nuvem que se desprende do vapor, talvez apareça no ar o génio do chá dos desejos.
Enquanto preparavas o chá Gautama adormeceu, durante a sua viagem ao inconsciente da natureza ele viu o génio do chá dos desejos. O génio do chá dos desejos tinha as duas partes da natureza. Gautama foi recebido por ele. Na gruta onde morava o génio havia uma mesa e sobre ela um bule de chá. O génio ofereceu ao senhor Gautama o chá do enlouquecer. Gautama sentou-se no chão, segurou uma pequena taça dourada e sorveu de um gole todo o chá depois sorriu, estendeu as mãos ao céu, alcançou uma estrela e pô-la na á gua do chá
Ele viu a noite e os planetas, não sentiu medo nem viu monstros ou com o seu olhar transformou essas criaturas em ilusão. O génio olhou Gautama , depois desapareceu, logo apareceu no monte sagrado e venerou toda a linhagem dos budas, das árvores, dos pássaros s dos homens de todas as cores, de todas as sabedorias e ignorâncias.

Quando Gautama regressou da sua viagem, tu penteavas os cabelos e o vento massajava-te o rosto. No ar havia o aroma ainda quente do chá. Gautama serviu-te uma pequena taça e pôs as folhas de chá nos cabelos. O vento tocava no galho das árvores e parece que saia uma musica suave, o aroma do chá misturado no aroma da musica. Enquanto bebiam o chá, sentiam um silêncio puro. Quando estamos com demasiados pensamentos o ar também fica pesado. Gautama levou os seus olhos ao firmamento dos teus, havia um calor e uma cor diferente do calor do fogo. As palavras não aconteceram, não aconteceram os desejos, o amor aconteceu e nada estava preparado pela vontade do corpo e da mente. Como as raízes se entrelaçam na terra vocês se entrelaçaram. Uniu-se o pequeno coração do corpo ao coração da terra ao coração do universo. Os teus lábios e os lábios de Gautama tocaram-se. A noite chegou tranquila e bebeu os restos de chá que sobrou das taças. Tu e Gautama seguravam nas mãos uma luz, tinham um arco irís que passava das mãos aos olhos.
Moonli continua a exercitar-se no oficio do voar. Moonli é o teu nome, na lingua dos antigos habitantes da montanha a palavra do teu nome significa aquela ou aquele que faz o ritual. quando fores capaz de esvaziares os pensamentos, as tuas riquezas e as espalhares pele terra, tu não possuindo nada, tu não estando sujeita a nenhuma condição ou a nenhuma lei a natureza entra em ti e tu voas. Tocas o céu e a terra. Abraças o pássaro, abraças a árvore, dás-me um abraço forte. Quando me abraças é a tua energia que trabalha o meu ser como as sementes que trabalham cada poro de terra, cada poro da pele. Gautama foi o teu amante espiritual, mais tarde encontraste cabelos compridos, cabelos compridos fazia musica, a musica também é um exercicio que prepara os seres para a magia do voar, com o som é possivel voar, com a vibração das pedras, com a vibração da luz. Cabelos compridos passa muito tempo a tocar citara, a musica da citara é doce como cerejas. Quando Moonli preparava o chá a musica entrava no vapor e eles e as crianças sentiam vontade de dançar. Com a dança nos unimos á força do silencio e á força da palavra, a dança harmoniza a luz e a escuridão. Quando escrevias dançavas, quando pintavas executavas o voo das aves, sentias o esvoaçar das flores no ar na água do chá, na linha dos dedos que adivinham o passado e o futuro, o amor e o trabalho. Vais começar a voar, vai ser preciso que a eternidade entre no teu ser, que o teu ser faça voar o teu corpo com o impulso da memoria que é o impulso da criação, o impulso da arte de criar e de viver, a arte do morrer e do renascer. Quando preparas o chá, quando preparas diferentes variedades, quando sentes os teus olhos a terem a cor do chá diluido na atmosfera tu ficas feliz, pareces uma criança, brincas e no teu faz de conta, na tua profunda imaginação esqueces as palavras sérias e as responsabilidades mundanas. Tu precisas da energia flutuante da vida, concentra-te no teu sorriso, no desabrochar da tua flor. Cada ser tem uma flor guia. As petalas das flores são os diferentes caminhos, os diferentes cheiros que tu inalas e que a floresta inala de ti. Tu, cabelos compridos, as crianças, o Buda Gautama, o espirito que corre no vale, que abençoa cada pedra, que é testemunha dessa magia prodigiosa, dessa pulsação da mãe terra que acompanha a respiração dos bichos, dos homens, de todos os seres, esse ser que medita, que ondula como uma folha na água do chá. Foi com a água do vale que preparas-te a prece para o começo do voar. A tua barriga está a crescer, um pequeno ser voa no teu interior, um pequeno ser que vem de uma gota de energia que desce do céu á terra e se envolve com os elementos, elementos que formam um corpo, uma mente. Tudo será conduzido pelo espirito, a grande alma que não tem principio nem fim, que guarda dentro dela mesma a decisão do bem e do mal.- A montanha elevasse acima dos teus olhos cabelos compridos.- Há muitas luas atrás subi aquela montanha, vi homens que procuravam ouro, estavam cansados e isso via-se no rosto deles, um dos homens perguntou-me onde ficava a aldeia mais próxima, tinha por lá um velho familiar que em tempos tinha trabalhado numa loja de chás provenientes do Paquistão. Ele seleccionava as folhas que eram expostas ao luar. A lua minguante dá sabor e é bom para fazer sonhos tranquilos.- Vem deitar-te comigo- Estou cansado, o meu espirito viajou como a lua cheia que segue as nuvens.- Sabes ler as mensagens das nuvens?- É como ler as palavras da água.- Temos de meditar nas lágrimas de Buda, os agricultores algumas luas antes da colheita visualisam as lágrimas do precioso. A terra será fertil e os frutos abundantes.- O fruto de mim, o fruto da terra que há em mim alimentará o amor, o amor do espirito, do corpo que o recebe e do pensamento que realiza o conhecimento. Longo foi o inverno, cabelos compridos partiu em busca de alimento e de agasalho, levou com ele o moinho das orações. Cabelos compridos não se despediu de moonli. Do outro lado da montanha ficava o mar, no porto de shiva grande era a azafama de pescadores descarregando e salgando o peixe. Durante muitas noites e muitos dias cabelos compridos alimentou-se de raizes e frutos silvestres. A terra foi o chão onde dormiu e antes de se deitar praticou a quinta essência do yoga, cem vezes se prostrou visualizando a roda do samsara, o circulo da morte e do renascimento. Ao longe ouviu-se o uivo frio dos lobos, ouviu-se ao longe o andar do rebanho fazendo rolar as pedras, remexendo a terra, as suas sementes, as suas raízes. Os pés descalços do pastor amaciando o solo selvagem. Levi o pastor andava guardando as suas cabras desde os sete anos. Cabelos compridos sentiu a terra mexer, a cor do céu vestiu os seus olhos e o seu corpo. Durante dez dias apenas bebeu água, alimentou-se do frio que descia do desfiladeiro e dos ruidos invisiveis do fogo que se esconde nas pedras, nas nuvens escuras do céu, no carvão que dorme na garganta do vulcão. Levi atravessou o rio com as suas cabras. Naquele lugar havia o veneno das serpentes e o polen das flores de ópio sobre a planta dos pés da Deusa Maya a Deusa da ilusão, a conselheira dos generais, aquela que presta favores ao mundo material. Levi tinha agora 14 anos, conhecia todas as suas anteriores vidas. Levi atravessou o rio com a arte de quem não se move, com a tecnica da morte. Assim iludiu a senhora da ilusão e as serpentes venenosas. Levi cantou os mantras e namorou a senhora ofertando-lhe o cristal das pedras e o brilho das areias aquecidas pelo sol forte. Levi o pequeno pastor projectou diferentes seres com oigem no seu ego e com o esplendor das riquezas temporarias fez a Deusa Maya tropeçar na sua própria ilusão. Levi o pastor tinha a visão apurada da águia, viu cabelos compridos e telepaticamente falou com ele.- Chamo-me Levi.- Chamo-me cabelos compridos.- Não és um peregrino!- Sim, também sou um caminhante.- Que procuras?- Procuro o grande mar.- Tens ainda muito caminho a percorrer, olha, quando chegares á próxima aldeia pergunta pelo velho Gatso o pescador, quando o encontrares diz-lhe que vens da minha parte, pede-lhe que te ensine a arte da pesca, tu lhe ensinarás as posições do yoga e as mil maneiras de preparar o chá, o sagrado chá que aquece o coração do Buda das cinco ervas.- Como sabes que sei a linguagem do yoga e a arte de preparar o chá?- Escuto o vento e tudo o que o vento sussurra as águas guardam e as árvores da floresta quando o vento lhes sopra a brisa do oceano e as histórias de amor, de raiva, de sobrevivência.Quando Gautama regressou da sua viagem, tu penteavas os cabelos e o vento massajava-te o rosto. No ar havia o aroma ainda quente do chá. Gautama serviu-te uma pequena taça e pôs as folhas de chá nos cabelos. O vento tocava no galho das árvores e parece que saia uma musica suave, o aroma do chá misturado no aroma da musica. Enquanto bebiam o chá, sentiam um silêncio puro. Quando estamos com demasiados pensamentos o ar também fica pesado. Gautama levou os seus olhos ao firmamento dos teus, havia um calor e uma cor diferente do calor do fogo. As palavras não aconteceram, não aconteceram os desejos, o amor aconteceu e nada estava preparado pela vontade do corpo e da mente. Como as raízes se entrelaçam na terra vocês se entrelaçaram. Uniu-se o pequeno coração do corpo ao coração da terra ao coração do universo. Os teus lábios e os lábios de Gautama tocaram-se. A noite chegou tranquila e bebeu os restos de chá que sobrou das taças. Tu e Gautama seguravam nas mãos uma luz, tinham um arco irís que passava das mãos aos olhos.
Moonli continua a exercitar-se no oficio do voar. Moonli é o teu nome, na lingua dos antigos habitantes da montanha a palavra do teu nome significa aquela ou aquele que faz o ritual. quando fores capaz de esvaziares os pensamentos, as tuas riquezas e as espalhares pele terra, tu não possuindo nada, tu não estando sujeita a nenhuma condição ou a nenhuma lei a natureza entra em ti e tu voas. Tocas o céu e a terra. Abraças o pássaro, abraças a árvore, dás-me um abraço forte. Quando me abraças é a tua energia que trabalha o meu ser como as sementes que trabalham cada poro de terra, cada poro da pele. Gautama foi o teu amante espiritual, mais tarde encontraste cabelos compridos, cabelos compridos fazia musica, a musica também é um exercicio que prepara os seres para a magia do voar, com o som é possivel voar, com a vibração das pedras, com a vibração da luz. Cabelos compridos passa muito tempo a tocar citara, a musica da citara é doce como cerejas. Quando Moonli preparava o chá a musica entrava no vapor e eles e as crianças sentiam vontade de dançar. Com a dança nos unimos á força do silencio e á força da palavra, a dança harmoniza a luz e a escuridão. Quando escrevias dançavas, quando pintavas executavas o voo das aves, sentias o esvoaçar das flores no ar na água do chá, na linha dos dedos que adivinham o passado e o futuro, o amor e o trabalho. Vais começar a voar, vai ser preciso que a eternidade entre no teu ser, que o teu ser faça voar o teu corpo com o impulso da memoria que é o impulso da criação, o impulso da arte de criar e de viver, a arte do morrer e do renascer. Quando preparas o chá, quando preparas diferentes variedades, quando sentes os teus olhos a terem a cor do chá diluido na atmosfera tu ficas feliz, pareces uma criança, brincas e no teu faz de conta, na tua profunda imaginação esqueces as palavras sérias e as responsabilidades mundanas. Tu precisas da energia flutuante da vida, concentra-te no teu sorriso, no desabrochar da tua flor. Cada ser tem uma flor guia. As petalas das flores são os diferentes caminhos, os diferentes cheiros que tu inalas e que a floresta inala de ti. Tu, cabelos compridos, as crianças, o Buda Gautama, o espirito que corre no vale, que abençoa cada pedra, que é testemunha dessa magia prodigiosa, dessa pulsação da mãe terra que acompanha a respiração dos bichos, dos homens, de todos os seres, esse ser que medita, que ondula como uma folha na água do chá. Foi com a água do vale que preparas-te a prece para o começo do voar. A tua barriga está a crescer, um pequeno ser voa no teu interior, um pequeno ser que vem de uma gota de energia que desce do céu á terra e se envolve com os elementos, elementos que formam um corpo, uma mente. Tudo será conduzido pelo espirito, a grande alma que não tem principio nem fim, que guarda dentro dela mesma a decisão do bem e do mal.- A montanha elevasse acima dos teus olhos cabelos compridos.- Há muitas luas atrás subi aquela montanha, vi homens que procuravam ouro, estavam cansados e isso via-se no rosto deles, um dos homens perguntou-me onde ficava a aldeia mais próxima, tinha por lá um velho familiar que em tempos tinha trabalhado numa loja de chás provenientes do Paquistão. Ele seleccionava as folhas que eram expostas ao luar. A lua minguante dá sabor e é bom para fazer sonhos tranquilos.- Vem deitar-te comigo- Estou cansado, o meu espirito viajou como a lua cheia que segue as nuvens.- Sabes ler as mensagens das nuvens?- É como ler as palavras da água.- Temos de meditar nas lágrimas de Buda, os agricultores algumas luas antes da colheita visualisam as lágrimas do precioso. A terra será fertil e os frutos abundantes.- O fruto de mim, o fruto da terra que há em mim alimentará o amor, o amor do espirito, do corpo que o recebe e do pensamento que realiza o conhecimento. Longo foi o inverno, cabelos compridos partiu em busca de alimento e de agasalho, levou com ele o moinho das orações. Cabelos compridos não se despediu de moonli. Do outro lado da montanha ficava o mar, no porto de shiva grande era a azafama de pescadores descarregando e salgando o peixe. Durante muitas noites e muitos dias cabelos compridos alimentou-se de raizes e frutos silvestres. A terra foi o chão onde dormiu e antes de se deitar praticou a quinta essência do yoga, cem vezes se prostrou visualizando a roda do samsara, o circulo da morte e do renascimento. Ao longe ouviu-se o uivo frio dos lobos, ouviu-se ao longe o andar do rebanho fazendo rolar as pedras, remexendo a terra, as suas sementes, as suas raízes. Os pés descalços do pastor amaciando o solo selvagem. Levi o pastor andava guardando as suas cabras desde os sete anos. Cabelos compridos sentiu a terra mexer, a cor do céu vestiu os seus olhos e o seu corpo. Durante dez dias apenas bebeu água, alimentou-se do frio que descia do desfiladeiro e dos ruidos invisiveis do fogo que se esconde nas pedras, nas nuvens escuras do céu, no carvão que dorme na garganta do vulcão. Levi atravessou o rio com as suas cabras. Naquele lugar havia o veneno das serpentes e o polen das flores de ópio sobre a planta dos pés da Deusa Maya a Deusa da ilusão, a conselheira dos generais, aquela que presta favores ao mundo material. Levi tinha agora 14 anos, conhecia todas as suas anteriores vidas. Levi atravessou o rio com a arte de quem não se move, com a tecnica da morte. Assim iludiu a senhora da ilusão e as serpentes venenosas. Levi cantou os mantras e namorou a senhora ofertando-lhe o cristal das pedras e o brilho das areias aquecidas pelo sol forte. Levi o pequeno pastor projectou diferentes seres com oigem no seu ego e com o esplendor das riquezas temporarias fez a Deusa Maya tropeçar na sua própria ilusão. Levi o pastor tinha a visão apurada da águia, viu cabelos compridos e telepaticamente falou com ele.- Chamo-me Levi.- Chamo-me cabelos compridos.- Não és um peregrino!- Sim, também sou um caminhante.- Que procuras?- Procuro o grande mar.- Tens ainda muito caminho a percorrer, olha, quando chegares á próxima aldeia pergunta pelo velho Gatso o pescador, quando o encontrares diz-lhe que vens da minha parte, pede-lhe que te ensine a arte da pesca, tu lhe ensinarás as posições do yoga e as mil maneiras de preparar o chá, o sagrado chá que aquece o coração do Buda das cinco ervas.- Como sabes que sei a linguagem do yoga e a arte de preparar o chá?- Escuto o vento e tudo o que o vento sussurra as águas guardam e as árvores da floresta quando o vento lhes sopra a brisa do oceano e as histórias de amor, de raiva, de sobrevivência.- Vamonos encontrar?
- Em breve.
cabelos compridos chegou de noite á pequena aldeia de patcha- luna. A casa do velho Gatso era forrada com argila e o telhado coberto de palha. Gatso o pescador estava á porta de casa consertando a sua velha rede de pesca. Cabelos compridos aproximou-se dele
- Venho da parte do jovem Levi.
- Falas-te com ele?
- Falámos telepaticamente.
- Que me queres?!
- Aprender a arte da pesca.
- Tens de treinar a paciencia.
- Podes ensinar-me...
- O próprio mar te vai ensinar, a floresta, a montanha, o dia e a noite tem muito para te ensinar.
- E tu?
- Eu estou velho, a unica mestra que me pode ensinar é a morte.
- Aprendemos todos com ela sobre o renascer.
- Vejo que estás cansado e com fome, em cima da mesa há uma tijela com caldo de peixe.
- Vou comer um pouco e deitar-me.
Cabelos compridos foi acordado pelo ruido do vento. O mar estava eriçado, parece que tinha a furia dos homens em guerra, parecia que tinha dentro dele um coração a bater acelarado. Cabelos compridos passou algum tempo observando o velho Gatso construindo e consertando as redes. A primeira aprendizagem foi o treino dos olhos, os olhos e a mente treinadosno oficio da atenção. Cabelos compridos tinha de conhecer o mar, conhecer-se a ele próprio, o seu conflito interior era sentir-se dividido não obstante ser a parte e ser o todo. Cabelos compridos e o velho Gatso partiram numa manhã que era o dia do aniversário do Buda Shakamuni o senhor das forças. Foram muitos meses de mar, meses de tentar não lembrar aqueles que deixamos em terra. O mar testava os nossos apegos, a nossa resistencia. Em forma de doença a morte se escondeu no corpo de cabelos compridos. Cabelos compridos parecia que tinha mil demónios dentro dele. O velho Gatso entoo o mantra da levitação e com o poder vibratório desse mantra flutuou sobre a espuma e sobre as mãos invisíveis do Sr shakamuni aquele que conhece a profundidade e a escuridão, a luz e a superficie. Durante quarenta dias cabelos compridos ficou cego. A sua cegueira foram os seus desejos os seus pensamentos de luxuria. Esses pensamentos não eram sua essência. Maya a senhora da ilusão era a sua mestra. Na natureza tudo pode ser o nosso mestre. A flor que desabrocha e o raio que fulmina.
O velho Gatso pousou sobre a sombra de cabelos compridos, uma sombra escura, fatalmente escura deu lugar a um foco amplo de luz.
- A febre baixou
- Que me aconteceu?
- Entras-te no reino dos demónios.
- Quem me salvou?
- Ninguém, tu próprio sais-te da escuridão, quanto mais te dividias mais nas trevas penetravas. Quando tomas-te consciencia que a causa da tua ignorância, que a causa do teu medo estava em ti reconciliaste-te com os teus demónios e eles copnverteram-se no Deus supremo que há em ti.
- Mas disses-te que entrei no reino das trevas...
- Os medos que a tua mente guarda são uma porta que recebe todos os lixos, o medo é uma porta que que se fecha, quando abres essa porta esse lixo sai. Através de ti aprendo a arte do yoga.
- Aprendes comigo a arte do yoga?
- É verdade.
- Como pudeste aprender com o meu medo, com a minha insegurança.
- Com a divisão descobresse a unidade, com o medo a ter-se cuidado e com a incerteza a reflexão.
- Mas...
Tu não vences os teus medos se lutas com eles, essa é uma luta inutil. Tu aceitaste-os, tu transcendeste-os.
- Penso que o mar me lê o pensamento, ele sabe que não há tempestade em mim.
- Ele aceita a tua fúria, a tua calma. Tu foste guiado até mim para que eu pudesse partir.
- Aonde vais?
- Vou deixar o meu corpo
- Vais morrer?
- Como as lágrimas saiem dos olhos o espírito sai do corpo.
- E quando é que isso vai acontecer?
- Quando me esqueceres. A morte chega quando nos esquecemos de alguém.
- Não me consigo esquecer de ti.
- O que a tua mernte esquece o teu coração guarda.

Numa noite de profundo silêncio em que ele cabelos compridos estava calado como se não houvesse dentro dele pensamentos e dentro dele fosse uma folha a flutuar e a subir até desaparecer do horizonte, o velho Gatso deixou o corpo. Agora tens de esquecer, qualquer recordação é um iman que puxa as almas ao mundo dos desejos, ao mundo fisico dos apegos e das paixões. Cada ser tem de seguir o seu caminho, fazer a sua vontade. Acende um pau de incensso, depois lança o corpo dele ao mar

Thursday, August 04, 2005

A noite se faz de olhos bebidos, nossos olhos de um branco madrugada, tinto branco madrugada. Dou-te flores e tu sabes que cheiro a peixe. Na tua forma poética de me sentires, todo o corpo é oceano e o espirito o Deus que zela por ele. Acordo e tenho dentro de mim toda esta força expressiva de sabores a flores a peixes e a prosa. É simples. Acordo e beijo-te ternamente a tua existencia. bebe contigo um branco tinto madrugada.

lobo 05

Wednesday, August 03, 2005

o pássaro

Adormeces... não sentes os pés e o céu pesate nos olhos, assim podemos concluir que és um pássaro que não pode voar porque tem os olhos pesados. É legitimo perguntar porque tem um pássaro os olhos pesados? Podia responder de diferentes maneiras: que saio da discoteca ás 6 da manha, que se envolveu numa briga de ciganos e foi detido pela policia, que tinha fome e foi á padaria comer pão quente e ficou á conversa com o ardina. O senhor sério, dizendo melhor o senhor importante bate os punhos na mesa e exclama! Pássaros não vão á padaria comprar pão, não se envolvem em briga de ciganos, mas se eu conseguir um cargo politico, os bichos pacificos e subissos nascidos no território e menores de 18 anos podem votar.E o senhor importante abriu a janela e viu um pássaro pobre. E vocês perguntam como sabia ele que era um pássaro pobre? Seria porque voava baixo, porque trazia um jornal desportivo debaixo da asa e deixava cair tremoços do bico. O pássaro poisou na janela do escritório, parece que chegou tarde ao ninho e a pardaleca sua companheira disse que ele fosse pedir trabalho ou que pediria o divórcio pois não queria alimentar vagabundos. O senhor importante e patrão de uma fábrica não podia empregar um pássaro que andava em briga de ciganos, que se enfiava nas discotecas e que para mais fugia ás responsabilidades de pai de familia. Um pássaro alcoolico era mau para a reputação da fábrica. O pássaro prometeu mudar as penas e vestir as penas do bicho homem e prometeu por os pés assentes na terra e ter os sonhos normais de toda a gente e não se meter mais erm discotecas cheias de fumo nem em brigas fossem de que natureza fossem. Mas nada disto foi possivel, a paixão se dá cabo da cabeça dos homens imaginesse o que não fará á cabeça dos pássaros que sempre andam nas nuvens. Agora os filhos é uma pobreza de fazer cair as penas do coração, a pardaleca não se aguentando com baixo salário anda fazendo bicos pelas avenidas e o pássaro anda a bater com a cabeça por uma loira oxigenada que era cabelareira em lisboa.
lobo 05

perguntas se gosto das pedras

Perguntas se eu gosto das pedras? Gosto de misturar as pedras nas palavras, as palavras na massa do pão, na massa do cimento. Fazemos as palavras e com a vontade destas constuimos as casas onde fazemos o amor. Com as pedras fazemos a margem dos rios e com as pedras erguemos muros e apedrejamos as mulheres e fazemos poemas e vamos aos colóquios falar das crianças e damos o nosso melhor. O planeta precisa de pedras e precisa de flores e de trigo nos campos e de pessoas que saibam semear e de outros que saibam construir e é preciso não esquecer os poetas que dão coragem para que haja menos frio nas casas. Eu gosto das pedras, não gosto de certas pedras como não gosto de certos homens. gosto das pedras que servem os poetas, que servem os pedreiros, que são lançadas pelas mãos dos pastores que acertam nas águas e fazem musica. não gosto das pedras que havia nas fisgas, gosto do granito e do basalto, gosto do barro e de moldar a vida e gosto quando choras e isso tem alegria. gosto de ver o sangue correr e de saber que os bichos correm nas veias das pedras e que se pode cheirar uma pedra e isso não faz perder o mistério. pois fico a saber que as pedras servem para as casas e para serem esculpidas e que servem para o ódio e para qualquer outra vontade. olha! toma uma pedra e deixa ficar na margem dos olhos, depois podes adormecer.
lobo 05

Sunday, July 31, 2005

quando no cais dos olhos se navega

Há pássaros guerrilheiros nascidos da chuva e do desespero. Quando fechas os olhos parece uma lua escura em volta das fogueiras apagadas de canções. Mas é preciso não esperar mais, a solidão é uma bala que nos mata. Há pássaros guerrilheiros que cantam o poder da primavera e cheiram ás flores do desespero, aventura louca e desenfreada do amor. Agora fechas os olhos e é para que a noite adormeça na margem do silêncio ao pé da água. Mas é preciso não esperar mais, a solidão é um olhar que nos trespassa quando no cais dos olhos se navega.
lobo 05

não vistas as paisagens com as tuas dores

não vistas a paisagem com as tuas dores
Não vistas a paisagem com as tuas dores nem a musica se sentes que os teus olhos ardem de lágrimas e cheiram ás canções infelizes. Se vestires a paisagem que seja com um sorriso de adormecer e a musica com todo o calor das mãos, com todo o fogo da terra e não despertes os pássaros dos seus sonhos. Não vistas a paisagem com as tuas dores, não inventes silencios que apertem angustias no teu peito. S e vestires a paisagem que seja com o fio dos teus cabelos, que seja com o vento ondulante das tuas mãos e com a água que passa entre os teus dedos e que vai para a margem dos teus pés solitários. Não vistas a paisagem com o medo dos teus olhos, nem a musica com o coração em pánico. Vai buscar ao rio um pensamento. O melhor silencio está escondido no amor.

as mãos sobre o vidro

As mãos sobre o vidro e o vidro estilhassado no corpo e é assim que a luz da paisagem caminha na tua pele e o teu corpo se abre ao meu como uma janela á madrugada. as mãos sobre o vidro e os olhos sobre o rio que corre e sobre o corpo que se ergue na sua luta contra a morte. as mãos sobre o calor da terra e a terra a respirar a tua boca com sede e eu sinto que é preciso ter sede para conquistar e amar o universo. as mãos sobre o vidro e o vidro que corta a luz dos olhos e os olhos que se fecham para guardar a intimidade da criação. lobo

o vento espalha-te o sangue

O vento espalha-te o sangue e há um homem que prova a maresia num copo fresco de vinho.O vento espalha-te as lágrimas e há uma musica aconchegada nos braços de quem perdeu a noite nas promessas da vida.
O vento espalha-te o sangue e há um homem que espera um dia unico de solidão selhe apetecer morrer.
O vento espalha-te as lágrimas e há um poente que podia cegar-te mas que te ilumina.
O vento espalha-te as lágrimas

deitou-lhe terra sobre os pés

o pequeno rapaz deitou terra sobre o seu pai, depois veio um pássaro ao quarto escuro falar do nascimento de uma árvore nas raizes do seu pensamento distante. O pequeno rapaz deitou-lhe terra sobre os pés, depois veio o rio contar-lhe coisas próprias do mundo do silencio. O pequeno rapaz deitou terra sobre o seu pai, depois veio alguém da floresta com um poema ilegivel. O pequeno rapaz deitou-lhe terra sobre o coração, havia uma nuvem que o atravessou e ele sentiu um perfume tão forte como uma revolta que transforma o amor em guerra. O pequeno rapaz deitou terra sobre o seu pai, depois veio um pássaro num voo incompleto dizer-lhe um poema ilegivel numa poça de água turva. O pequeno rapaz olhou o rio tão transparente como o corpo de seu pai dormindo com a primavera. lobo 05

misturando o gelo com as palavras

estou na rua misturando o gelo com as palavras, làgrimas fermentadas sorrisos de fingir. estou na rua e vejo as maos nos corpos e a solidao dos corpos caindo na estrada como em cima da dor quando faltam coisas para fazer o amor. estou na rua, estou no bar misturando o gelo com o sangue, làgrimas fermentadas sorrisos de fingir, agora que sou embriagado, so posso conversar com a madrugada. estou na rua e vejo as maos nos corpos e a solidao dos corpos caindo no chao como em cima do pensamento quando se faz por esquecer o tempo da guerra. estou na rua misturando o gelo nos ohos, vejo ciganos vendendo ouro, arrumadores de melodias tristes. com o olhar disparas-te para o coraçao, a morte do amor caiu no mar e assim o amor è uma etrna profundidade. estou na rua misturando o gelo com as palavra

lobo

A minha parte lua

Queres conhecer a minha lua... basta saires á porta de casa. No céu há uma caligrafia que é o desenho desse rosto noturno.Vens beber um café com a minha parte lua, estarei á mesa contigo a iluminar-te as pernas, não ofereças cigarros á minha sombra que já me basta fumar os comboios e as chaleiras a fumegar de chá.
Vens tu ou eu?!Sou a lua que está em qualquer parte, que se acende nos olhos e se apaga nos pensamentos.Tu desejas conhecer esta lua, achas que ela é a coincidencia de um amor tão forte que é impossivel ser outro. A lua conhece a vida em todos os propósitos e tu que habitas sobre a água e a terra, que contas as estrelas nos finos dedos chupados de desejo, pensas que podes tomar café, leres o jornal e beijares o teu namorado com a protecção da minha sombra. Não! É melhor ficares ou vai por uma rua onde eu não ande, não me encontrarás no mercado a vasculhar no meio das flores, nem terei o cheiro de peixe quando andares sózinha pelo cais.
O meu destino é o meu destino, ilumino ruas , não carrego lágrimas, nem quero um grão de sdangue para pintar a tua vida e a tua paisagem tão surreal e louca como uma adolescente espanhola.
Agora estás zangada com a lua! Olha come laranjas e terás um por de sol dentro de ti.
Hoje não vou aparecer no céu, nem vou aparecer asos homens. Hoje não vou aparecer porque não me apetece existir
lobo 05

Andaluzia

Andaluzia è um passaro, Andaluzia è um poeta, um poeta que escreve com as pedras e o sol è o velho que vive nessas pedras e è o passaro que poisa nas àrvores de Andaluzia. Andaluzia è uma aventura, um silencio edificado quando as suas mulheres se vestem de terra. Andaluzia è um passaro, Andaluzia è um poetas, è um pàssaro que chora, è um poeta que voa. Eu vi um camponez lavrando a terra, a terra era uma carta onde ele lavrava o amor. Andaluzia era o seu amor, Andaluzia era a sua terrra. E eu que sou estrangeiro e nao percebia aquele amor agora me comovo e sinto que andaluzia è um amor universal. Andaluzia è um passaro, Andaluzia è um poeta
granada dez 04
A Dona Alzira na sua cadeira de baloiço parecia esperar vizitas. A forma como ela mexia os olhos deixava adivinhar duas coisas; uma é que ia chover a outra a vizita do novo inspector, um tipo chamado Vicente e que vinha tentar acertar um relógio á muito desacertado. O inspector Vicente leu o relatório escrito pelo antigo e defunto inspector, ficou a conhecer alguns dos intervenientes e pensou fazer uma viagem á Austria para saber o que pensaria o dr Sismundo sobre um crime daquela naturesa e porque sémen nos olhos e não champanhe. O corpo não era percorrido por gotas de champanhe. Se o corpo tivesse sido percorrido por gotas de champanhe o inspector vicente deduziria que se tratava de um conde Francês o autor do crime, mas em virtude de ter sido encontrado semen nos olhos da vitima chegou o inspector vicente á conclusão que o criminoso negociava com material ard cor. Era imperioso estar de olho sobre todos os consumidores de jornais e revistas de teor pornográfico.
Enquanto a Dona Alzira se vai balançando na cadeira e nos seus pensamentos tocam á campainha.
- Bom dia minha Senhora.
- Bom dia inspector, preparei-lhe um chá.
- Um chá agradeço.
- Tire o casaco vai sentir-se mais á vontade.
- A senhora já vive neste bairro á muito tempo.
- Sim, desde pequena.
- Sempre foi um bairro tranquilo até acontecer aquele crime não foi.
- O mundo de um modo geral é um bairro intranquilo.
- É verdade. Diga-me a senhora conheceu o falecido inspector?
- Ele vinha cá muitas vezes, era apreciador de bacalhau. ainda guardo fotografias e tenho uma fotografia da pobre com os olhos brancos de neve.
- Naquela altura suspeitavasse de quem?
- Havia a teoria de que o crime tinha sido práticado por uma pessoa gorda.
- E em que é que se baseavam essas teorias.
- Alguém tinha visto um homem gordo a rondar o lugar onde tinha sido praticado o crime, suspeitou-se de um policia que costumava adormecer de noite á porta da lavandaria quando ficava bebedo.
continua

as palavras a fugir dos homens

Assim de repente dou um salto, ponho as palavras a fugir dos homens ou leio nas cartas de amor sub-entendidas histórias de policias e ladrões. Foi assim; desenterras-te o machado de guerra, depois beijaste-me os lábios. Lisboa ficava no lugar daquela cicatriz. O amor era profundo e o sangue que corre alimenta as feridas de te desejar, de não ter palavras. Assim de repente dou um salto, parece que sou eu o movimento da terra, que sou eu no meu silencio a dizer que te quero. Agora desejava nascer, nascer no sentido de não perceber o lugar onde estou e ser ai o praser na primeira forma de existência. Assim de repente dou um salto, ponho as palavras a fugir dos homens e no entanto há as musicas e do outro lado do mundo o pulsar do coração. A meu modo fiz a minha viagem á lua, dou um salto e desço á tua profundidade. Entretanto fico na minha superficie de homem e de aventureiro.
lobo05

a água que posso imaginar na ideia do desejo que tenho de ti

Atravesso o rio, as paredes de água e a sede do teu corpo, a tua cidade onde da janela me chamas e o meu pensamento anda sempre em viagem e os pássaros levam em viagem a minha vontade de ir a outros lugares. Estou mais a teu lado quando me afasto da tua presença e trago de volta o paraiso ao teu corpo. Atravesso a água e bebo toda a água que posso imaginar na ideia do desejo que tenho de ti. O meu pensamento anda sempre em viagem, canto as canções que não me pertencem e tu pertences-me nessas canções que canto e nessas paisagens que ficam dentro de mim quando fecho os olhos e as faço desaparecer. A tua cidade chama-me e tu tambem quando o fazes me continuas a iluminarl lobo 05

a mulher que foi encontrada morta com semen nos olhos parte 2

Estamos parados, parece que os acontecimentos andam ao nosso lado e são como árvores numa viagem de comboio. Chegamos á poucos dias a esta rua, pouco do que sabemos nos foi contado pela Dona Alzira a mulher da fruta. - Vou sair - Onde vais? - tomar um copo. - Disseste que ias deixar de beber. - Vou beber um pouco de ambiente, não me irei embriagar, depois trago um filme. Queres vir? - Vou organizar umas coisas, não fiques muito tarde. O café estava cheio de barulho, de corpos a suar e parece que os copos se enchiam da gota do suor dos copos que ali chegavam em desejo e em desalento. Acenei ao empregado, reparei no sorriso que me fazia por trás das costas. Enquanto não me trazia a cerveja dirigi-me á casa de banho, nasparedes havia números de telefone, mensagens curtas, vocabulário para todos os gostos e gramática de fazere descer as calças. " Empresário do norte deseja sexo com construtor civil" se gostas de sexo oral e tens mais de vinte anos... depois voltei ao meu lugar, tinha no bolso um par de dados e senti uma sensação boa de os ter entre os dedos. - Deseja tomar mais alguma coisa perguntou-me o empregado? - Não é preciso mais nada obrigado. Depois dirigiu-se ao balcão baloiçando o rabo como se fosse o código morse do amor homosexual, um instante depois numa altura em que aquele lugar estava a ficar vazio pediu para se sentar, começou a perguntar-me se o aborrecia que falasse dele. Disse-lhe em tom de ironia que se a vida dele fosse um livro e não fosse muito dramática só o suficiente para abalar um pouco a extrutura sólida e pouco variada das nossas vidas podsia dar-se todo. Começou por me perguntar se ouvira falar do caso da mulher que foraencontrada morta com sémen nos olhos? Disse-lhe que ouvira umas coisas pela mulher da fruta. - A mulher que foi encontrada morta era minha irmã. - Lamento sinceramente, mas porque me está a contar isto. - Gostava de lhe pedir para você decobrir o assasino. - Eu não sou policia. Mas você escreve. - Escrevo outro genero. - Sim mas quando escreve desvenda os seus mistérios não é? - Pode ser mas ouvi falar que andou por cá um inspector, parece que morreu á coisa de seis meses. - Era um tipo simpático mas infelizmente o seu figado... - Bebia? - O bastante, olhe você gostava de investigar este caso, podia ser um desafio escrever um livro policial. - Porque deseja descobrir que matou a suairmã. - Gostava de me vingar. - Acho que não o vou ajudar, acho que não quero envolver-me. - A minha irmã tinha os meus segredos, tinha o meu coração, você sabe que sou homosexual. - houve noites em que telefonavam paracasa - telefonavam?! quem ? - não sei, diziam só vamos foder a tua irmã maricas de merda. - olhe se me prometer que tira da cabeça essaideia de vingança vou ver o que posso fazer. - Obrigado. - bem, adeus. - quando sair deixe a porta fechada. Eram já altas horas quando cheguei a casa, no dia seguinte tinha um bilhete amarrotado em cima da cama. Dizia assim o bilhete: ( estou farta, fui me embora, vou ficar num quarto de hotel, depois telefono. Por instantes fiquei a olhar para o vazio, não percebia porque se tinha ela zangado, gostava de lhe ter contado acerca do acontecido naquela noite. Quando cheguei estava ela a dormir profundamente, o gato que dormia sobre os pés da cama deu um salto, será que eu cheirava tanto a álcool assim, acho que nem tinha bebido muito. Eu já tinha tentado fazer uma cura, gostava que ela soubesse que o alcool me faz sair do normal, sim eu sei que esta minha forma de sair do normal é estranha, sei que me excedo, mas quantas vezes não foi o meu excesso no beber a minha transcêndencia no amor. Não pensei ainda no que vou fazer, instantes depois batem á porta. É a Dona Alzira a mulher da fruta. - Bom dia - Bom dia. - Quer fruta? - Não costumo comer muita - Fazia-lhe bem - Acha?! - Dizem que a fruta é boa para a digestão e para as zangas de amor - A senhora parece que é bruxa, parece que lê na fruta. - Você andou a beber... - Andei. - Olhe que a fruta é uma coisa saudável. - Eu sei, na verdade costumo provar. - Provar?! - Sim, aguardente de maça, de figo, de pera. - você é muito engraçado. - A senhora importasse que lhe faça uma pergunta? - Faça lá - Sabe alguma coisa daquela história da mulher que foi violada? - Coitada quando a encontraram tinha os olhos brancos como a neve. - E tem alguma ideia sobre quem a pode ter morto. - Eu tinha a minha teoria, mas o caso tornou-se depois uma coisa do outro mundo. - Explique lá! - Não sei o que possa explicar, muitas explicações andam nos livros e nas novelas, eu mal sei ler, a policia disse que suspeitava de alguém gordo, o inspector disse aos jornais que um policia gordo caido do inferno tinha confessado o crime. - E que aconteceu - não o deixaram continuar a investigação, disseram que tinha problemas de cabeça. - Problemas de cabeça?! - acharam que não batia bem. - A senhora conhecia o inspector? - Era uma joia de homem, sempre a elogiar a minha forma de cozinhar bacalhau. - passados alguns meses morreu. - Sim - E que me diz do irmão da tal mulher. - Acho que é mal empregado. - Mal empregado?! - Um rapaz bonito, está a perceber? - tento. - porque acha que lhe mataram a irmã? - sei lá! hoje em dia matasse por tudo e por nada e morresse. olhe! se calhar foi alguém que odiava os maricas. - A senhora ódeia os maricas. - Olhe são filhos de Deus e desde que me comprem fruta por mim não me queixo. Passaram já alguns dias desde que Cristina saiu de casa. Ontem finalmente tinha uma mensagem no atendedor de chamadas, pedia que lhe ligasse, assim fiz, pedi á telefonista do hotel para ligar ao quarto 18. - Olá disse ela - Olá respondi eu soletrando as palavras timidamente. - Como tens passado e no tom da sua voz havia preocupação - Normal. - Tens te alimentado bem. - Não me saiu mal. - Olha estive a falar com um médico meu amigo. - Sim! - acho que devias fazer uma cura. - Achas?! - Tu é que tens de saber. - Estou confuso - E depois?! - Não consigo fazer nada organizado, desde que saiste a casa ficou um caos, era mais fácil andar no caos do mundo. - Então queres ser internado? -Está bem! - O médico meu amigo falou na possibilidade de seres internado em abril. - Pode ser. - Precisas de alguma coisa? - Oriento-me. - Amo-te. - Eu também te amo. Vamos por instantes subir ao céu e ver o que acontece por lá. O faz todas coisas está sentado na sua almofada branca. Põe os óculos de tartaruga, não por falta de visão mas porque lhe dá um ar sedutor, a sedução é o novo mandamento deste século e tecniva já usada por belzebu desde o principio para puxar as almas á perdição do prazer. Ora parece que o faz todas coisas resolveu dar ouvidos ao anjo revolução o unico que tem sexo e cheira a um incensso esquizito. Faz todas coisas contratou assessores de imagem, d. gráficos,destribuidores de cartazes e um mega comicio onde a mulher com sémen nos olhos será cabeça de cartaz. chamar as almas não é agora um trabalho como era no tempo da outra senhora a virgem do fascismo. o céu abriu as portas á televisão privada, o criador sabe que pode contar com o homem da gravata que morreu vitima de uma peixarada num mercado do norte era uma alma beata e devota da nossa senhora da sagrada manipulação de massas. Conto-vos agora que enquanto alguem é internado para fazer uma das muitas curas alcoolicas já tentadas, nquanto o céu se agita como tempestade num frasco, o policia gordo tem como remissão dos seus crimes limpar as retretes do inferno, sabemos nós que a distancia entre o céu e o inferno é quase a mesma que entre portugal e a espanha. A pergunta quem será o céu quem será o inferno não sou eu que terei de responder, mas falava eu do policia gordo e das retretes do inferno para vos dar conta da grave situação que foi haver se constatado uma avaria no cano esgoto dos infernos o que iria por consequencia provocar odores desagradaveis na morada do faz todas coisas. Entretanto no hospital onde está internado o escritor e agora também detective a pedido do irmão da mulher que foi encontrada com semén nos olhos, passava no corredor das urgências coberto com um lençol branco, António Manuel, canalizador de profissão, vacinado contra a doença do leite, especialista numa variedade de vinhos nacionais e estrangeiros. Eram pois 3 da madrugada quando um homem na casa dos 55 envergando um fato de macaco e uma caixa de ferramentas se encontra ás portas do céu. Decide bater - Sim - venho consertar um cano esgoto. - Não é aqui. - Onde é? - É no inferno. - Há alguem com quem eu possa falar? - Espere! Ó faz todas coisas está lá fora um canalizador. - Diz para entrar. - Pode entrar, segunda nuvem á direita anunciou o rapaz que fora apanhado pelas rodas de um carrro de bois. - Dá licença que entre?! - puxe uma nuvem e sente-se. - Venho consertar um cano esgoto. - Sim fui eu que mandei a morte buscá-lo, a semana passada pedi-lhe que me trouxesse um médico pois andou por aqui a mulher da limpeza que deixou isto tudo encharcado de água mas a coitada que não vê muito bem trouxe-me um jogador de futebol, pedi-lhe para marcar uma consulta no médico dos olhos, felizmente que desta vez não se enganou. - E o jogador que lhe aconteceu? - voltou á terra, ainda tinha que cumprir um contracto com um clube estrangeiro. - E eu que faço? - Levas esta carta de recomendação para que o cornudo não pense que o meu pessoal é incompetente. - E eu depois onde fico - que te dizia o médico lá na terra. - Para não beber alcóol, nem comer gorduras. - então vais e depois voltas para aqui. - E o que é que se faz aqui? - cantasse, lê-se poesia e dá-se formação profissional a almas vitimas de insucesso escolar. regressando á terra onde continua internado o escritor, agora também envergando a pele de detective amador em busca da solução para o mistério da mulher que foi encontrada morta com semén nos olhos. Na hora das vizitas chega Alex o empregado do bar. - Então como está? - melhor e você? -Hoje é dia de folga - Eu estou de folga alcoólica. - Agora tem de fazer um esforço - faz-se um esforço para se viver - Tudo é feito de esforço e tudo tem a sua parte de alivio. - Você tem uma foto da sua irmã? - tenho aqui na carteira. - É muito bonita! - Era. - Talvez no paraiso ainda a achem bonita. - Você acredita em Deus? - que importância tem isso, cada qual tem um Deus para as suas convicções, ou não tem Deus nem convicções. - A minha irmã tinha o sorriso de Deus. - Você acredita que Deus está no sorriso da sua irmã. - Isso é poesia! - É. - Você ouviu falar no poeta Alexandre? - Vagamente. - E que sabe acerca dele. - sei que conhecia o tal de inspector e que esteve preso por suspeita na morte da sua irmã. - Você podia falar com ele. - E que lhe vou dizer? De repente entra alguém por engano no quarto. - Desculpem é aqui que está um senhor... - Acho que o conheço!... - A mim?! - Você é o poeta Alexandre não é?! - Sim e você? - Trabalho naquele bar perto da estação. - fui lá poucas vezes. - Este amigo é novo na nossa rua. - Está a gostar? - Ainda não deu para sentir muito bem o paladar. - Olhe que tem paladares que davam para um livro. - Talvez um livro policial. - vou tentar descobrir o meu amigo cauteleiro, quando sair podemos tomar um copo. - um café... - pode ser. O escritor ainda ficou mais uns dias, Cristina regressou a casa e novamente se ausentou, tinha conseguido colocação como professora, vinha ao fim de semana, ele tinha engordado um pouco parece que o que tirava ao alcóol ponha em açucar. Á noite ele lia-lhe o livro que estava a escrever, contava-lhe as novidades sobre a sua investigação, tinha a novidade de não ter novidade, embora tivesse uma boa fonte de informação. Encontrei-me numa ocasião com o poeta Alexandre, foi numa altura em que a minha relação com a cristina estava a passar de morna a fria. Se antes a culpa era do alcóol, agora a culpa era o facto de eu dar mais atenção aos meus escritos e andar a perder tempo a brincar aos policias e aos maricas segundo ela. Vocês sabem como o ciume é irracional e a propósito de ciume conto-vos a seguinte história. Certo dia de certa hora de certo ano e de certo mês morre um jovem casal. Faz todas coisas recebe-os, todos os dias da eternidade discutem, quando o céu fica vermelho não é um por de sol, é consequencia do ciume resultante do rapaz olhar a mulher que tem sémen nos olhos. Ele não a olha com olhos enamorados, olha-a apenas como quem olha algo bonito. Faz todas coisas não sabe o que fazer com eles, pensa pedir conselho ao anjo revolução o unico que como vocês sabem tem sexo e é entendido por conhecimento de causa em assuntos da personalidade femenina. - Que devo fazer?! diz-me! - Deixa que se separem. - Estás maluco. - É melhor que este inferno - Vira essa boca para lá. eu não me importo de ceder um pouco mas isto não é o da Joana, não estou a dizer que as joanas não tenham lugar no céu, é um ditado muito antigo que quer dizer... - Eu sei o que quer dizer. - Olha afasta do meu nariz esse incensso esquizito. - É erva. - Onde arranjas isso? - foi um alfaiate Marroquino que morreu afogado num barril de petróleo. - Acho que seria melhor não acenderes isso. - Que tem?! - Podes explodir isto tudo - não há problema o Alfaiate vive no inferno, eles usam dos ferros de engomar antigos, desses em que se ponham brazas dentro, ele contou-me que os quartos tem água quente. - Estou a ver no final do mês é que são elas, as contas para pagar! estou a ver... nós usamos a energia do sol, lembro-me que foi uma ideia tua, só não gostei quando trouxeste aquele grupo de hipis com aqueles olhos de quem não dorme há mais de uma eternidade. - Eram um pouco parecidos contigo. - Comigo?! - Tu também não dormes. - Isso julgas tu, durmo com um olho aberto e com uma mão fechada. - E escreves direito por linhas tortas. - Muitos anos de prática. O elevador das almas está subindo. Olhem vem um grupo de Japoneses com suas máquinas fotográficas, perguntam onde é o inferno, querem uma recordação. um Japonês conseguio uma fotografia do faz todas coisas a dormir a sesta. Vamos por momentos por os pés na terra, o escritor a pedido dos seus leitores resolveu reconciliar-se, ou reconciliou o homem e a mulher, cristina e José foram atingidos pelo incensso do anjo revolução e estão de novo apaixonados. continuando o poeta Alexandre está contndo como conheceu o inspector, que organizou a missa do terceiro dia e que as calças que vestia foram feitas pelo alfaiate e mistico o algibeira descosida. Falou no tempo que esteve preso e na injustiça de ser julgado pela aparencia. ele não tinha ideia de quem poderia ser o assassino. por suspeitarem de alguem gordo, podia ser o pavarotti, o policia gordo que dormia ás portas da lavandaria, mas também que interessava, se havia um culpado lá no outro mundo saberiam alguma coisa. - olhe quando eu morrer venho cá contar tudo em pormenor. - Têm visto o Alex?- O empregado do bar?!- Esse- Parece que conheceu um Australiano.- E que aconteceu?...- Parece que o Australiano tinha um barco- E dai?!- Dai que se apaixonaram.- O amor é uma navegação.- Um momento, vou pedir um café.- Tmbém gosto de café quente.- Você já esteve apaixonado?!- Os poetas inventam a paixão.- E quando de apaixonam mesmo?!- Sofrem.- E você não quer aceitar que isso pode acontecer- Não penso nisso- Eu penso.- Vejo que está preocupado.- Tenho medo de a perder.- Você se calhar antes tinha medo de a conquistar, agora tem medo de a perder.- Você sabe o que posso fazer.- faça o que fizer o sol vai brilhar e a lua fará sempre sombra.- Começo a simpatizar consigo.- Antes tarde que nunca.- Eu amo a Cristina.- Se o amor for conrrespondido vou ter pena de não estar na sua pele.- Agora sinto-me um frango depenado.- Tudo vai acontecer normal, olhe o céu- parecem os olhos dela.
Depois segui á beira rio, olhei as estrelas, lembrei-me que quando se contam estrelas nascem-nos cravos nos dedos, que me nasçam rosas ou tulipas, terei os dedos perfumados na tua pele.
- O rapaz é um poeta comenta lá do alto o faz todas coisas- Só é pena aquele mau feitio diz a dona ermelinda a mulher a dias- vamos á nossa vida que há muito para fazer.
lobo. 05
não percam a terceira parte da mulher que tinha semen nos olhos parte 3 ainda por inventar

maria puta de lisboa

Estou a pensar que significa voltar a ver-te, sempre te encontro quando chove e o fumo do café se parece a um génio. Apetece-me chorar e não sei porque o faço. É me indiferente as gotas de limão que usas ou o golpe que fazes nas veias para que me comova da tua solidão. Agora eu fingo, todas as formas de teatro me foram uteis para ficar nas ruas onde me vendia. a minha familia desejava que a minha vida fosse tão imaculada como um cu virgem. Estou a pensar que tu não podias ficar, a mentira faz mexer os pés. Os livros mentem, as obras de arte também e eu levanto o tampo da sanita e cago esta presunção de festas com champanhe e os prémios dos escritores importantes. Estou a pensar que todos os dias vejo Deus e eu pergunto-lhe como se lhe perguntasse as horas, se ele gosta das putas, se ele ama as putas a cima de todas as coisas. estou aqui embrulhada em histórias fingidas, pensei consultar um psicólogo, eu Maria, natural de Bragança, violência no corpo e na memória, não tenho filhos, não tenho homem e aqui estou a contar esta minha odisseia a que dei o nome , mulher com semen nos olhos.
Acabei de chegar á capital, na terra de onde venho o trabalho é pouco e o senhor januário prometeu-me um lugar de corista no teatro, para ele eu era um talento de corpinho feito, ele dava ares de muitos conhecimentos, conhecia ministros jogadores de futebol e passado quase um ano divido um velho quarto com um travesti , a Rosário que é sero positiva e dá á força toda no cavalo. Atirada á rua ganho a vida a fazer broches dentro de ferraris e outros carros de marca, ás terças feiras canto o fado vadio numa taberna, o senhor januário, o chulo, dizia que eu havia de ser o orgulho de minha mãe. Na taberna onde canto o tal de fado vadio conheci um poetas que quer escrever para mim, ele é um velho doce. Eu não sei o que ele escreve, mas se o que ele escreve for o sorriso dele vou gostar do que escreve. na estante do meu quarto tenho alguns livros. só não gosto de livros católicos, as igrejas só servem para dormir; quando olho a virgem que tem o meu nome e vejo as pessoas a darem-lhe moedas, digo-lhe que na rua ganhava mais e que o pecado é uma treta, basta fechar os olhos e tudo se converte em virtude. Pego na mala e apanho um taxi, estou no ano de 89 da janela do taxi vejo uma carrinha da policia com putas lá dentro, muitas vezes me encontrei na mesma situação, sentia-me uma vaca dentro de uma camioneta, sinto os pés doridos, peço para parar uns minutos numa farmácia, , o empregado parece um alfaiate a tirar-me as medidas. - Que quer?- Tenho os pés doridos.- Aqui tem.- quanto é?- 250 escudos.depois volto para o taxi e passados uns minutos estou em casa. O prédio é velho e cheira a mijo de rato. a entrada não tem luz por isso subo as escadas com cuidado, acendo o esqueiro e vejo restos de seringas espalhadas, Rosário está na casa de banho a cortar o cabelo, ouvesse uma musica flamenca, a voz de camaron da ilha.- Há café grita-me ela- vou para a cama.- estás bem?!- sim e tu?fiz dinheiro para a dose e para os cigarros.- amanha é dia de pagar a renda.- eu sei antes de sair deixo a minha parte debaixo da porta do teu quarto.- está bem, até amanha.rosario costuma ir ao domingo ao cemitério, diz que ai tomar chá com a alma da sua avó.- ó rosario as almas não bebem chá.- se cheiram incensso porque não podem beber chá.- não se pode fazer nada com os mortos.´- só morre aquilo de que não se gosta.- e que coisas morreram para ti?- sei lá eu!- bem vamos abrir uma garrafa.- vamos beber o sangue das nossas vidas.- á saude- á saude.
rosário por causa da sua doença se encontrar nas ultimas teve de ser internada, eu mudei de casa, uma assistente social arranjou-me um trabalho de recepcionista na santa casa da mesericordia. Agora moro numa casa com quintal, moro eu e o meu gato. ontem recebi uma carta da minha mae, como pensa que eu trabalho no teatro pede que lhe envie entradas para ir ver a revista, eu escrevo que vou viajar, que vou em tourne, mas prometo-lhe que quando regressar lhe ofereço as entradas. ofereço-lhe também um estojo de beleza. na ultima carta contava-me que o meu pai lhe batia, não conseguia parar de beber. o pai de rosário também batia na mãe e quando esta era pequena por diversas vezes a tinha violado. Faz uma semana que ela morreu. agora imagino que está a beber chá com a alma da sua avó, ontem enquanto escutava a musica do amolador vinha-me ao pensamento que a morte tem a musica da chuva, pensar isto não aquece o coração, se ela agora aqui estivesse tentariamos recomeçar. ou talvez seja uma desculpa para se fugir aquilo que tinha de ser vivido, rosário tu nunca amas-te ninguem, mas também nunca foste amada por ninguém ou não houve tempo para que descobrisses as coisas que demoram tempo. penso ter-te conhecido bem ,mas nao estive na tua pele, as nossa dores são coisas muito nossas e não existem medidores capazes. podia escrever-te uma carta, mas não há o correio das almas. tenho o gato sobre o meu colo, limpo uma pequena lágrima ao seu pelo e fico quieta como se eu fosse ele e o mundo tivesse parado. A nossa vida é um muro branco que apetece sujar ou simplesmente tornar o seu aspecto uma coisa mais autentica do que era antes, podemos imaginarum homem de fato branco, um tipo como o senhor Januário que está podre e parece casto nas finas maneiras de se insinuar no primeiro encontro, ele está filiado num partido de direita, tudo o que foi construido ilegal, toda a sua riqueza pessoal se fez na angariação de mulheres e no tráfico de droga. agora veio a lume o seu envolvimento no lado escuro do futebol. O senhor Jánuário terá sempre a protecção dos seus padrinhos, a familía politica não o vai deixar cair em desgraça. ninguem está limpo, eu tento recomeçar, não é sempre por motivos pesados que vamos parar aquilo que outros adjectivam de pior. O pior pode ser a moral, a religião, o pior pode ser não se conhecer o lado escuro e levar-se com luz demasiado forte nos olhos. Agora me lembrei que são poucos ou nenhuns os retratos de infancia, parece que o vento leva a infancia como leva os papeis do chão, parece que leva as roupas do corpo, o gato parece que me percebe, ele é o meu homem, o meu amor verdadeiro, imagino que espalha a cinza da lareira sobre os meus cabelos, parece um ritual ortodoxo, finjo que sou a madalena apedrejada nos predios e nos centros comerciais e que ele é um cristo agil se escapando para os telhados perdoando aos homens que caem na tentação de representarem demasiado bem o amor. O meu trabalho decorre normal, costumo encontrar por perto o velho poeta, costumamos conversar um pouco, as nossas conversas são o assunto dele que é a poesia, fala-me do luis pacheco que é um poeta surrealista que anda a comer dos caixotes do lixo e que é o poeta mais puta de lisboa, ele e o cesariny são todos a melhor puta de poesia. conto-lhe que ás vezes escrevo, o meu sonho era o teatro e ele elogia-me a voz, que tenho uma garganta de água tão cristalina como a garganta do sol. eu desato a rir e bebo o meu café. olho a rua e lembro-me que tenho de passar pela mercearia da rosa e comprar comida para o gato. O velho poeta olha-me e toca-me as mãos e parece que acrecenta vida, vida verdadeira aos anos que julgava ter perdido, tenho umas rugas mas sinto-me bonita, quando recordo certas passagens penso que foi um comboio rápido que passou e a memória parece uma árvore que caminha e depois desaparece. não sei se tu acreditas no amor, é preciso não recusar a entrada do sol, a minha mãe parece a figura em forma de escuridão. não é capaz de uma lágrima, não sabe fazer um sorriso verdadeiro, podia convida-la a passar aqui uns dias, mas estar com ela ainda vai representar muita tralha de vida que não gostaria de voltar a confrontar, não queria velhos ódios. quando eu resolver vou vizitá-la ou envio-lhe dinheiro. seja como for nao queria insistir na tentativa de me sentar á mesa fingindo a madalena bem comportada da sagrada familia. a ideia de ter contas a ajustar foi a muito. o amor nao se fabrica, isto nao o posso dizer á minha mãe, parece que estar aqui, ter familia , enfim faça-se o que se fizer tenha-se o que se tiver é da nossa responsabilidade. podia dizer que cada um tem de pagar as suas contas, mas a indiferença é uma conta elevada, fingir que os outros não existem, que as nossas questões são só nossas torna mais agudas as nossas dores, vou tentar não magoar a minha mãe, tentar não representar demasiado bem. vou preparar uma comida rápida e vou sair onde há uma feira do livro, vou caminhar um pouco a pé, outro dia passei por um padre, depois ele entrou no elevador e eu disse para mim que era só carregar no botão e estava no céu, ele tinha um ar bastante conservador, se calhar pensa que os elevadores são obra do diabo, eu estava com vontade de me despir á frente dele, de o provocar, a tentação também está num elevador, o padre parece que tem trinta anos, é magro de cara, uma cara de palerma, se eu fosse o cristo havia de cair da cruz de tanto rir. agora vou arrumar um pouco a casa, é mais dificil arrumar a vida, fiz um arranha céu de loiça, tantos os dias que fiquei sem vontade de arrumar ou lavar, a vantagem de viver sozinha ou a desvantagem, quero contar-vos que o poeta me tem feito propostas de casamento, não de um modo directo mas dá a entender, eu já tive muitos homens e ás vezes não sei se há muita diferença entre ser-se puta ou ser-se domestica, parece que somos todos grandes putas. até tu digo eu ao meu gato. se eu escrevesse um livro podia ser sobre a prostituição no reino animal. vou pois arrumar a casa. depois ponho-me a dormir, o gato costuma adormecer comigo, imagino ele a ter os meus sonhos e eu os dele, eu a ter os sonhos dele vou andar a cheirar a peixe e ele vai cheirar a puta, um gato a cheirar a puta. ainda estou a pensar no velho poeta, vou encontrar-me com ele e se ele falar embora disfarçadamente em casamento vai ficar a saber que sofro de uma doença incuravel que faz os homens infelizes. ainda tenho uma alma de puta, não é pelo dinheiro dos homens, é pelos segredos deles, na cama apanham-se muitos segredos de estado, o casamento é uma regra e eu quero dar-me selvagem, perceber a mentira e a ilusao dos homens. sei que exagero em relação ao homens, sei que quando nós mulheres nos demoramos com eles, quando permitimos que saia de dentro deles aquele orgulho de nos conquistarem como quem conquista o mundo, acho que as mulheres são conquistadas pela solidão deles. lembro-me de um cliente meu que pagava para falar da mulher e dos seus dois filhos, dizia que amava tanto a mulher que não a conseguia tocar, fizera com ela amor apenas duas vezes, depois pagava pela conversa e pelo sexo, outro dia vi-o de longe, estava com a mulher e os filhos, as crianças eram bonitas, penso que eram felizes, naquele dia fazia muito sol, ouvi-as gritar e parece que aquela vida se misturava no brilho do sol, era o sol a gritar com a vida, a pedir mais uns sorrisos, mais uma restea de vontade. olho á minha volta, parece que o rio afunda o passado, parece que me apetece uma sinfonia e que uma profunda tristeza é o vicio dos dias. fazis meses que a rosario morreu, de seu verdadeiro nome alberto, ainda tenho na minha mala de mão alem do verniz e do baton uma fotografia dela, sei que quando a mesma foi tirada tinha 14 anos, está vestido com uma saia escosesa e parece que tem na expressão dos olhos vontade de dançar, quando era criança andou a aprender balet com uma professora russa, como a família não tinha muitos recursos, uma senhora pagava-lhe as aulas, passados uns dias a senhora foi atropelada e o balet ficou esmagado nas rodas de um carro. quero eu dizer, atropelou-se uma grande oportunidade ou quem sabe a sua vida não seria o qwue tinha de ser, rosario tu eras uma pobre e já te imagino a dançares em pontas com o desiquelibrio do mundo. agora raras vezes encontro o velho poeta, ás vezes está sentado nas escadas da basilica da estrela, anda sempre com um caderno, já tentei ler a sua letra, parece caligrafia de médico, disse-me que esteve para estudar medecina, pensou ser médico dos olhos, confidenciou-me que gosta de olhos azuis, que gostava de ser o médico do mar e de tratar os olhos azuis do mar quando lhe aparecesse a doença da tempestade. eu fico a olhá-lo, parece que os poetas sao pessoas dificeis, as palavras não sao simples como as raizes que ficam na terra e dão sem explicação flores á disposição dos nosssos olhos, despeço-me dele e apanho o electrico, vou descendo a rua e reparo no fumo que sai de uma chaminés, parece a fábrica das nuvens, se calhar vai chover, depois fecho os olhos e adormeço um instante. a cidade movesse em mim tao intima e indiferente como as palavras fora dos livros e das pessoas. o poeta acena-me o acenar das suas mãos ondulam como asas e eu dou uma gargalhada e o mundo interior ri e desato a chorar. era como se tudo aquilo que tentasse reconstruir desabasse, acho que nao quero reconstruir coisa nenhuma, acho que não quero voltar ao começo, sempre que me apaixono, sempre que penso em alguem, sempre que fecho os olhos vejo mais nitido dentro de mim e ao mesmo tempo nao percebo nada. escrevo-te esta carta, na verdade ainda é um rascunho, o cesto dos papeis tem outras, parece que são bocados de vidas rasgadas, rasgadas mas não apagadas, a memória é uma doença que não se cura. ontem lembrei-me daquela tarde de Maio em que tentei o suicidio, lembro-me de ouvir a rosário contar que me fez beber azeite e que depois até parecia que tinha vomitado a criação, devo ter expulsado muitos demónios. o velho poeta quando lhe contei esta passagem da minha vida diz que a morte faz subir a febre á vida, eu penso que morrer é uma fuga, pelo menos aquela encenada pelas nossa vontade. sei que não tenho respostas, sei que do outro lado não existem segredos desvendados, filosofias á parte é dentro de ti e de mim para o mal e para o bem. eu maria, nascida em bragança, te dedico estas palavras e um dia se nos encontrar-mos vamos lembrar ou vamos esquecer, ou fazer o que for melhor para que o chão nao nos puxe os pés
lobo 05

uma flor no arame

Uma flor no arame, sangue no pescoço da flor. A faca no amante, noite que também sangra, romântica luz da lua na escarpada montanha. Uma flor no arame, a musica da rádio no parapeito do mundo. E o sangue no pescoço da flor e o grito a plenos pulmões que entrou golo como o amor que entra pela alma. A flor no arame, sangue na faca e sangue na terra. E a musica e o olhar nu e violento como a musica dos bairros, como as láminas velhas arranhando as pernas das putas e das nossas mães. Uma flor no arame, o navio a navegar, o mar e o sangue e eu a desejar-te. A sala escura do cinema, a minha mão a percorrer-te o sexo, a fazer-tesentir a chuva, a percussãoda minha mão no teu sexo. Uma flor no arame, sangue no pescoço da flor. A viagem a nenhum lugar, o melhor do amor parece ser o que nos faz tristes, disto nos inspiramos, parece que ficamos no ar como pássaros doidos. Uma flor , um golpe de faca, na tua aventura de amor a paixão deixou-te inerte e a cidade deixou-te no corpo as canções, os golpes das palavras que cortam, deixou-te o desejo dos homens e tu soubeste da fome deles e eu percebi o amor quando me senti abandonado. A flor, sangue na faca, como chuva na terra sangue na flor, na eternidade do amor. lobo 05

um mar para a revolta

Não aconteceu nada... nem eu no espelho nem tu do outro lado.Cada um de nós tem a sua margem, as minhas lágrimas são as minhas lágrimas e tu tens a tua vida, tens o sorriso que tens. Não sou indiferente só não fico a guardar uma canção demasiado tempo na garganta.
Não aconteceu nada, nem eu tenho poesia, nem tu precisas de acender o candeeiro para me leres, ocupas melhor os olhos lendo as nuvens, lendo as mãos de um qualquer vagabundo.
Não aconteceu nada, não tenho vinho para encher o copo, nem palavras para as conversas sociais.
Ficamos apenastu desse lado e eu deste. Tu tens um gato para acariciar eu um mar selvagem para a revolta. Espero que o meu mar não te arranhe e que o teu gato não me afogue.

lobo

OS MEUS GASTOS DIAS

Os meus dias, os meus gastos dias, agora que me falta alcool no copo e nao posso desabafar no livro, nao posso vingar-me completamente nas palavras por a solidao ter ter agarrado tempo de mais a minha juventude. Os meus dias, os meus gastos dias levados como um galope de cavalo que revolve a terra e que mostra em segredo a distancia de eu nao ter corpo e de jà nao ter pensamento. Eu fico um pouco alegre por ninguem saber a idade do rio. Nunca ninguem pergunta sobre a idade dele, nalgum romance pode surgir um por de sol e um homem que se apaixona e nao arrasta a margem dos anos para o seu peito enamorado e jovem. Os meus dias, os meus gastos dias, agora que me falta salpicar o rosto de àgua salgada e fumar o amarelo cigarro enquanto o fumo è uma nuvem ou um pàssaro doente que me olha enquanto eu olho o diàrio. Estou com o rio, nao estou perto dele, na verdade nao estou com ele, mas falo-lhe quando os homens ficam fechados e as maos nao se abrem, mesmo que nao esteja com ele, ele da-me àgua e limpa-me os meus olhos tristes e mesmo que tenham sido muitas vezes aquela è a vez em que eu sou criança e sinto vontade de mexer os braços da vida e de ser tao completo como uma cor a germinar o cèu. Os meus dias, os meus gastos dias, agora que por mim passam as estaçoes e eu deixei de inventar aquela que todos os dias me amava quando eu nao acreditava e agora nao acredito nas palavras mas quero o fogo e as pessoas pois tenho frio eè melhor um pouco de calor, è melhor quando aceito este momento e consigo chorar porque o rio nao me faz perguntas e o vento atira-me para a terra quando jà nao consigo dançar com a vida. Agora que os meus gastos dias vao se aproximando eu tento uma longa viagem, pofdem as estrelas acompanhar-me e podes tu lembrar num relamnce de olhos que a eternidade è o livro que fica e a gota do vinho que resta no copo e tu escutaràs a mesma musica e do resto fica a sombra e o pò dos caminhos selvagens. Os meus dias os meus gastos dias, jà nao tenho sangue para verter mas se ainda puder ouvir vidas de encantar e utupiaas de nao sentir morrer.Ò meu amigo ò minha amiga deixa-me o vinho e o tabaco e o perfume, sò isso sobre a terra, quero renascer e se a chuva cair que o rio me proteja e a noite tenha o direito de me abandonar. Os meus dias, os meus gastos dias, agora que me falta alcool no copo e nao posspo desabafar completamente no livro, nem vingar-me nas palavras que fazem o òdio nos homens. Ò meu amigo ò minha amiga deixa-me o vinho ou umas asas para voar se eu tiver coragem para me lançar da janela infinita. os meus dias, os meus gastos dias, dias gastos a procurar e a esconder, dias em que se tentou fazer de novo o amor e o teu corpo febril ficava no meu e havia um espaço entre o desejo que eu tinha e o teu modo de experimentares a mao da natureza e a minha mao no teu sexo. Os meu dias, os meus gastos dias, a cama onde ainda cheiro o teu corpo que espera e nòs agora juntos na mesma esperamos que seja o momento de ficarmos dissolvidos no mesmo coraçao, no mesmo habito de entrelaçar nos dedos as nossas seguras duvidas do amor e da vida e da morte absoluta que è o prazer de tudo isto. Os meus dias, os meus gastos dias agora que me falta ver um cao a dormir no livro sujo e o vagabundo a vomitar nas escadas do museu de arte comtenporanea, agora que o cao me ama e o vagabundo nao me julga e agora que ainda hà alcool no copo e a fogueira ainda està acesa, Ò minha amiga ò meu amigo peço as vossas maos, nao as vossas palavras, mas as vossas maos, assim talvez a minha viagem e o meu segredo possa ficar entre mim, voces e o rio.

A NUVEM QUE ERA UM ANJO

Certo homem procurava uma casa para puder habitar, muitas vezes dormira na rua, sujeito ao frio que vinha das montanhas ou recebendo os raios de sol que eram trazidos pelo perfume das flores e pelo suspiro dos jovens apaixonados. Andava ele nesta procura quando ouviu uma voz que o chamava:- Olha para cima! disse a voz. E ele olhou e viu uma nuvem pequena e azul.- " De certeza que não foi ela que me chamou, as nuvens não sabem falar embora sejam criaturas sentimentais.- Olha! Ó homem estou a falar contigo, estou aqui neste céu que tem sido a tua casa, sei que procuras uma casa dessas onde moram homens como tu, onde se acasalam, tem filhos, tem um trabalho, fazem projectos e um dia vem o outono e leva-os para um jardim frio.- Onde fica esse jardim frio e porque estás a falar comigo esssas coisas?!- Sabes embora eu tenha a aparência de uma nuvem, na verdade sou um anjo. Tu procuras uma casa, um lugar onde possas repousar sem sobressaltos de especie alguma, sem medo dos salteadores de estrada, um lugar onde possas ficar a sós com a tua alma, onde possas reflerctir sobre a tua condição e sobre o sentido de toda a tua vida, quero dizer-te que tenho uma casa para ti.- E onde fica esse lugar? É muito longe daqui?- Para habitares essa casa tens de sentir que todas as tuas dores vão saindo como uma gota de água se evaporando dos olhos, tu só podes habitar esta casa quando não houver em ti nenhuma solidão e nenhum desejo.- Estava a pernsar que durante este tempo que dormi na casa do universo, durante esse tempo em que me alimentei do fruto das árvores e de distintas raizes, em que senti o frio das montanhas e os braços das mulheres rodeando este meu coração fraco e cheio de duvidas sobre o amor, me apercebi também que uma luz me entrava na alma quando os livros que trazia comigo eram os poetas, esses seres sujos e pobres, essas criaturas insignificantes aos olhops dos bispos e dos juizes. Mas quando chegava uma chuva torrencial e as pesadas gotas caiam sobre eles eu julgava que estavam a ser abençoados, que aos seus pés se formava um arco irís tão colorido e brilhante como uma recompensa depois da morte. Depois não me importava o frio e nem a fome me torturava o espirito. Antes de saber que eras um anjo olhava-te ou olhava outras como tu e sentia que estava tão leve e tão silencioso que me esquecia de tudo e qwue no fundo eu era o pequeno grão de terra e toda a montanha era criação dos meus olhos.- Dá-me as mãos, vou levar-te a essa casa.- Estou com medo!- De que tens medo- Eu procurava uma casa e agora encontro uma nuvem que é um anjo e que me quer levar a uma casa que sinto ser aquela que quer receber a minha alma, aquela onde deixarei á porta as minhas dores, a minha fome, as minhas palavras e os meus amores carnais. Estou indeciso parece que preciso de me recolher por uns dias naquela velha igreja e aconselhar-me com os pássaros que costumam poisar sobre a toalha de linho estendida no altar.Eo homem ficou durante três dias naquela velha igreja onde há muito a unica liturgia era o canto dos pássaros e onde o sol se convertia aquele mistério. A nuvem passado alguns dias entrou naquela igreja onde prostrado sobre umas escadas de pedra estava ele. O anjo pegou na sua alma e levou-a para aquela casa que é o grande sol, que é o grande oceano, que é a grande porta que se abre para o novo bater de um coração.
lobo 05

histórias do cinema piolho

Gostava de fazer um filme... mas fico-me pelo gosto, pela tentativa de me imaginar a filmar a outra parte da vida, converter um homem sujo que cheira a merda de esgoto no mais candido anjo que me leva pela mão a escutar o som das caixas de musica e a guardar debaixo da lingua o sabor do vodka e do sangue pre menstrual. O meu medo, o meu terrivel medo de tudo seria o suficiente para me libertar do sentimento de culpa, criaria personagens do mais fraco que a condição humana oferecesse e tu olhando os olhos deles, o andar deles, a lingua que falam e o coração que lhes treme verias em mim o Deus que não sou, o cavaleiro invencivel a cortar medos como quem corta cabeças. Quando posso vou ao cinema. Lembro-me do cinema piolho que ficava no bairro do bosque, lembro-me que o ecran era um lençol velho e que num certo filme de aventuras as pulgas saltavam como as ondas do mar. Ficava tão embebido no filme que nem sentia as picadas perfurando-me a pele, no velho cinema lembro-me que ficava com o corpo preso á cadeira quando passavam aqueles filmes indianos e eu imaginava uma alma perfumada a tocar-me num modo de não me tocar. Naquela altura o cinema era só um pacto com a minha imaginação, a senhora que voava no chapéu de chuva era tão jovial e alegre como a moça que vendia algodão e mostrava as meias de seda aos olhares gulosos dos pequenos pedreiros que se roçavam nas cadeiras fantaziando coisas que não estavam no filme. A primeira vez que a paixão me entrou na vida como rebuçados entrando no bolso tinha eu 17 anos, eu não costumava falar com os meus pais, a minha vida era muito secreta, escrevia poesia em folhas de papel pardo que roubava na mercearia e encontrava-me ás escondidas á porta do tal cinema piolho com o caderno dos poemas debaixo do braço e ela depois achava-me um chato, eu que tinha medo de a magoar com o prazer escondido dos meus desejos e ficava semanas a remoer porque carga de água não a tinha beijado. Na próxima vez o argumento ia mudar, as minhas mãos no seu corpo, mesmo que corresse o risco de levar um estalo, parecido ao gongo que certo homem semi nu toca antes de começar o filme. Anos mais tarde num outro cinema da cidade fui com o meu pai ver o que dizia ele ser um filme pornográfico, o senhor chamava-se pasolini, o meu pai era um homem severamente católico e só os primeiros anos da revolução fizeram cair uma certa rigidez de comportamento, aquele filme eram as mil e uma noites, umas mil e uma noites onde me imaginava num tapete com as freiras do colegio da cruz da areia, eu a fazer sexo com elas, a esfregar-me no corpo delas como batatas na gordura do óleo. Costumava refugiar-me no cinema quando fazia gazeta ás aulas, sabia muito mais sobre a vida dos actores e dos realizadores do que a matemática e as formulas quimicas e aqueles nomes todos das ciencias naturais que tinha de decorar. O corpo da sofia loren era a melhor das ciencias naturais. O cinema era aquela parte visionária da minha poesia, usava um sobretudo cheio de remendos, nos bolsos guardava caixas de medicamentos, na escola trocava cromos de futebol e diferentes marcas de drunfaria. Certa noite fiquei escondido na sala de projecção, passei a noite a dormir, eu e o projeccionista que tinha trabalhado num circo italiano, contava que tinha conhecido felini, que tinha doze mulheres e que já fora forte como hercules. Havia tardes, principalmente as de inverno em que só havia eu e meia duzia de gatos pingados, havia um tipo que cheirava ao chulé e quando o homem da lanterna o quiz expulsar jurava a pé juntos que era o charlot a causa daquele cheiro e o pessoal assobiava comentando que também era o charlot que se punha aos peidos por causa de comer os atacadores. O meu pai trabalhava numa fábrica onde se fabricavam peças para o interior dos comboios, por a tal fábrica ter fechado fui viver com a minha avó para uma zona muito perto da espanha, fiquei um ano sem escola e lembro-me de passar por lá um homem com uma caixa de musica e uma máquina de filmar, nesses dias a igreja do lugar ficava vazia e houve até um certo domingo de páscoa em que não houve a paixão de cristo, mas a paixão de gina, conto ainda que levei uma tareia da minha avó, uma mulher que tinha lutado contra os mouros ainda Deus não tinha ideia de filmar o mundo. O cinema não seria a minha vocação embora me imaginasse a filmar as nuvens, a filmar o teu corpo como uma pintura de Miguel angelo, filmaria os meus eus carregados de solidão, estava chateado da minha poesia, resolvi inscrever-me num grupo de teatro, tudo era do pior, o encenador que naquele tempo era chamado de ensaiador era cheio de tiques, era um anjo loiro a dar ao rabo e a escrever piadas mais mal cheirosas que o cu. O divertido daquilo tudo foi a minha primeira experiencia como saltimbanco, se conseguisse estar a fazer o pior cinema já ficaria contente, mas sabia de muitos filmes que tinham sido peças de teatro e muitos livros que eram costurados de vida. Por alguns momentos podia escapar á autoridade paterna e não teria de ouvir a minha mãe sobre a apresentação dos meus cadernos repletos de recortes poeticos, eróticos e herejes. O cheiro do velho cinema, a recordação do velho televisor a valvulas que não se aguentava nas canetas e o meu pai a dar murros na mesa por não conseguir ver o futebol parecia eu um personagem orfão num filme de pobrezas e gargalhadas, eu magro e esguio como um desenho animado. Foram muitas recordações do cinema que consolaram a minha fome de pão. A fome de charlot era a minha fome, a lágrima de busten keaton, era a minha lágrima. Agora sinto que o cinema não me envergonha da minha solidão. Vejo o cão sarnento e escuto o martelar da chuva e parece que aquela serenata se renova passados estes anos. O cinema essa alma que existe em todos os olhos, ajudou-me na construção de uma certa e protectora mentira que me salvou o ego e o orgulho. Lembro-me de ser o cinema a máquina de apagar medos, cada murro que o trinitá dava no bandido era eu a imaginar-me a bater no velho professor que dormia com a cabeça sobre a secretária e por cima daquela cabeça de porco, um cristo nu a chorar e a verter sangue. Abençoado trinitá que te vingas por mim, acho que terei poupado muito dinheiro em psicanalistas e psiquiatras, mas verdade verdadinha o trinitá deixou mal a minha reputação de intelectual. Os musculos e a força desse heroi na verdade não me ajudaram a esquecer as humilhações da escola, da familia, do mundo social. Tentei escapar pela porta do riso, pocurei na filosofia e mais tarde num certo tipo de cinema compreender como era possivel filmar a poesia, como o cinema é um jogo, morre-se qundo se perde, ganha-se quando se renasce. Gostava de morrer na escuridão de uma sala de cinema, certa noite sonhei que o Marlon brando estava a puxar-me e me mostrava o lodo que havia nas almas e eu gritava-lhe que tinha um medo pavoroso de um certo tio que se lambuzava desde os olhos aos pés, parecia um mafioso, um homem que desejava poder apagar da mémória. Os cinemas deviam ser como as igrejas, a gente podia lá ir rezar, quando fugi certa vez da tropa refugiava-me numa igreja, era uma igreja velha, os cabelos do cristo estavam a cair, tinha tomado uns comprimidos, via o cristo e a virgem com as caras desfiguradas, pareciam leprosos, perguntavam-me o que fazia ali e eu perguntava se havia vinho, se eles gostavam de cinema, se as cadeiras de madeira do cinema império tinham sido feitas por josé o carpinteiro?! Dormi por lá algumas vezes, outras ia a um velho cinema abandonado olhar uma cadela que tinha tido cachorritos e eu imaginava que eu era o vagabundo e ela a dama, um dia encontrei-a morta a ela e aos cachorros, tinha havido uma briga de traficantes de heroina, nessa noite chorei tanto que senti vontade de cortar os pulsos, senti vontade de correr todas as salas de cinema, de suplicar que me deixassem entrar num qualquer filme, que o velho hitch me deixa-se entrar na casa abandonada e eu pudesse morrer em paz. Estou aqui perdido nestes pensamentos, a imagem dos cães ensanguentados, dachuva torrencial, dos olhos dela que se cruzam com os meus como o relampago se cruzacom o céu. Foi breve o romance e longa asolidão e parameu consolo ficou a recordação de a possuir, de a ter nas minhas aventuras e fantazias, de ser um vagabundo de cinemas, de tendas de circo, ficou-me o consolo de ainventar sempre que as luzes se acendiam, o poderoso cinema acendeu dentro do meu corpo essa força, esses movimentos, essas imagens, canções e palavrasflutuando como água no olhar dos personagens, neles estava aminha coragem a a minha cobardia. Sinto-me um D Quixote, sinto-me um velho mineiro buscando ouro, mas sou um pobre preto oriundo de umafamilia de escravos que nasceu com o dom para aimprovisação e que dança tão rápido como umalocomotiva ou como as multidões correndo velozes graçasávelocidade da máquina de projectar. Acreditava que a sala escura do velho cinema seria a minha casa, o filme esse não teria intervalo ou apenas um que fosse para te ir buscar. Por segundos sairia da sala e correria rumo a um futuro onde estarias com esses teus olhos pretos, dava-te as mãos e entrava contigo sorrateiramente ao som dos dias da rádio. Depois sentavamo-nos á mesa como uma família judia e o nosso avó tocaria violino ou fugiriamos do velho alcapone tão assustados como num primeiro amor em que nos sentimos entre o abismo e o paraiso. Tenho frio, visto a gabardine e penso naquela história que aconteceu em Lisboa do homem que matava prostitutas, uma delas foi morta naquele cinema onde uma vez dormi, Lisboa tem um silencio, as águas do rio dormem e respiram como os homens, há na verdade uma pausa na narrativa que faz mover qualquer coração, qualquer pensamento. Alguem desce umas escadas, uma sombra de suspense suspensa nos olhos... há um silencio, certamente não é dos inocentes.