Sunday, July 31, 2005

maria puta de lisboa

Estou a pensar que significa voltar a ver-te, sempre te encontro quando chove e o fumo do café se parece a um génio. Apetece-me chorar e não sei porque o faço. É me indiferente as gotas de limão que usas ou o golpe que fazes nas veias para que me comova da tua solidão. Agora eu fingo, todas as formas de teatro me foram uteis para ficar nas ruas onde me vendia. a minha familia desejava que a minha vida fosse tão imaculada como um cu virgem. Estou a pensar que tu não podias ficar, a mentira faz mexer os pés. Os livros mentem, as obras de arte também e eu levanto o tampo da sanita e cago esta presunção de festas com champanhe e os prémios dos escritores importantes. Estou a pensar que todos os dias vejo Deus e eu pergunto-lhe como se lhe perguntasse as horas, se ele gosta das putas, se ele ama as putas a cima de todas as coisas. estou aqui embrulhada em histórias fingidas, pensei consultar um psicólogo, eu Maria, natural de Bragança, violência no corpo e na memória, não tenho filhos, não tenho homem e aqui estou a contar esta minha odisseia a que dei o nome , mulher com semen nos olhos.
Acabei de chegar á capital, na terra de onde venho o trabalho é pouco e o senhor januário prometeu-me um lugar de corista no teatro, para ele eu era um talento de corpinho feito, ele dava ares de muitos conhecimentos, conhecia ministros jogadores de futebol e passado quase um ano divido um velho quarto com um travesti , a Rosário que é sero positiva e dá á força toda no cavalo. Atirada á rua ganho a vida a fazer broches dentro de ferraris e outros carros de marca, ás terças feiras canto o fado vadio numa taberna, o senhor januário, o chulo, dizia que eu havia de ser o orgulho de minha mãe. Na taberna onde canto o tal de fado vadio conheci um poetas que quer escrever para mim, ele é um velho doce. Eu não sei o que ele escreve, mas se o que ele escreve for o sorriso dele vou gostar do que escreve. na estante do meu quarto tenho alguns livros. só não gosto de livros católicos, as igrejas só servem para dormir; quando olho a virgem que tem o meu nome e vejo as pessoas a darem-lhe moedas, digo-lhe que na rua ganhava mais e que o pecado é uma treta, basta fechar os olhos e tudo se converte em virtude. Pego na mala e apanho um taxi, estou no ano de 89 da janela do taxi vejo uma carrinha da policia com putas lá dentro, muitas vezes me encontrei na mesma situação, sentia-me uma vaca dentro de uma camioneta, sinto os pés doridos, peço para parar uns minutos numa farmácia, , o empregado parece um alfaiate a tirar-me as medidas. - Que quer?- Tenho os pés doridos.- Aqui tem.- quanto é?- 250 escudos.depois volto para o taxi e passados uns minutos estou em casa. O prédio é velho e cheira a mijo de rato. a entrada não tem luz por isso subo as escadas com cuidado, acendo o esqueiro e vejo restos de seringas espalhadas, Rosário está na casa de banho a cortar o cabelo, ouvesse uma musica flamenca, a voz de camaron da ilha.- Há café grita-me ela- vou para a cama.- estás bem?!- sim e tu?fiz dinheiro para a dose e para os cigarros.- amanha é dia de pagar a renda.- eu sei antes de sair deixo a minha parte debaixo da porta do teu quarto.- está bem, até amanha.rosario costuma ir ao domingo ao cemitério, diz que ai tomar chá com a alma da sua avó.- ó rosario as almas não bebem chá.- se cheiram incensso porque não podem beber chá.- não se pode fazer nada com os mortos.´- só morre aquilo de que não se gosta.- e que coisas morreram para ti?- sei lá eu!- bem vamos abrir uma garrafa.- vamos beber o sangue das nossas vidas.- á saude- á saude.
rosário por causa da sua doença se encontrar nas ultimas teve de ser internada, eu mudei de casa, uma assistente social arranjou-me um trabalho de recepcionista na santa casa da mesericordia. Agora moro numa casa com quintal, moro eu e o meu gato. ontem recebi uma carta da minha mae, como pensa que eu trabalho no teatro pede que lhe envie entradas para ir ver a revista, eu escrevo que vou viajar, que vou em tourne, mas prometo-lhe que quando regressar lhe ofereço as entradas. ofereço-lhe também um estojo de beleza. na ultima carta contava-me que o meu pai lhe batia, não conseguia parar de beber. o pai de rosário também batia na mãe e quando esta era pequena por diversas vezes a tinha violado. Faz uma semana que ela morreu. agora imagino que está a beber chá com a alma da sua avó, ontem enquanto escutava a musica do amolador vinha-me ao pensamento que a morte tem a musica da chuva, pensar isto não aquece o coração, se ela agora aqui estivesse tentariamos recomeçar. ou talvez seja uma desculpa para se fugir aquilo que tinha de ser vivido, rosário tu nunca amas-te ninguem, mas também nunca foste amada por ninguém ou não houve tempo para que descobrisses as coisas que demoram tempo. penso ter-te conhecido bem ,mas nao estive na tua pele, as nossa dores são coisas muito nossas e não existem medidores capazes. podia escrever-te uma carta, mas não há o correio das almas. tenho o gato sobre o meu colo, limpo uma pequena lágrima ao seu pelo e fico quieta como se eu fosse ele e o mundo tivesse parado. A nossa vida é um muro branco que apetece sujar ou simplesmente tornar o seu aspecto uma coisa mais autentica do que era antes, podemos imaginarum homem de fato branco, um tipo como o senhor Januário que está podre e parece casto nas finas maneiras de se insinuar no primeiro encontro, ele está filiado num partido de direita, tudo o que foi construido ilegal, toda a sua riqueza pessoal se fez na angariação de mulheres e no tráfico de droga. agora veio a lume o seu envolvimento no lado escuro do futebol. O senhor Jánuário terá sempre a protecção dos seus padrinhos, a familía politica não o vai deixar cair em desgraça. ninguem está limpo, eu tento recomeçar, não é sempre por motivos pesados que vamos parar aquilo que outros adjectivam de pior. O pior pode ser a moral, a religião, o pior pode ser não se conhecer o lado escuro e levar-se com luz demasiado forte nos olhos. Agora me lembrei que são poucos ou nenhuns os retratos de infancia, parece que o vento leva a infancia como leva os papeis do chão, parece que leva as roupas do corpo, o gato parece que me percebe, ele é o meu homem, o meu amor verdadeiro, imagino que espalha a cinza da lareira sobre os meus cabelos, parece um ritual ortodoxo, finjo que sou a madalena apedrejada nos predios e nos centros comerciais e que ele é um cristo agil se escapando para os telhados perdoando aos homens que caem na tentação de representarem demasiado bem o amor. O meu trabalho decorre normal, costumo encontrar por perto o velho poeta, costumamos conversar um pouco, as nossas conversas são o assunto dele que é a poesia, fala-me do luis pacheco que é um poeta surrealista que anda a comer dos caixotes do lixo e que é o poeta mais puta de lisboa, ele e o cesariny são todos a melhor puta de poesia. conto-lhe que ás vezes escrevo, o meu sonho era o teatro e ele elogia-me a voz, que tenho uma garganta de água tão cristalina como a garganta do sol. eu desato a rir e bebo o meu café. olho a rua e lembro-me que tenho de passar pela mercearia da rosa e comprar comida para o gato. O velho poeta olha-me e toca-me as mãos e parece que acrecenta vida, vida verdadeira aos anos que julgava ter perdido, tenho umas rugas mas sinto-me bonita, quando recordo certas passagens penso que foi um comboio rápido que passou e a memória parece uma árvore que caminha e depois desaparece. não sei se tu acreditas no amor, é preciso não recusar a entrada do sol, a minha mãe parece a figura em forma de escuridão. não é capaz de uma lágrima, não sabe fazer um sorriso verdadeiro, podia convida-la a passar aqui uns dias, mas estar com ela ainda vai representar muita tralha de vida que não gostaria de voltar a confrontar, não queria velhos ódios. quando eu resolver vou vizitá-la ou envio-lhe dinheiro. seja como for nao queria insistir na tentativa de me sentar á mesa fingindo a madalena bem comportada da sagrada familia. a ideia de ter contas a ajustar foi a muito. o amor nao se fabrica, isto nao o posso dizer á minha mãe, parece que estar aqui, ter familia , enfim faça-se o que se fizer tenha-se o que se tiver é da nossa responsabilidade. podia dizer que cada um tem de pagar as suas contas, mas a indiferença é uma conta elevada, fingir que os outros não existem, que as nossas questões são só nossas torna mais agudas as nossas dores, vou tentar não magoar a minha mãe, tentar não representar demasiado bem. vou preparar uma comida rápida e vou sair onde há uma feira do livro, vou caminhar um pouco a pé, outro dia passei por um padre, depois ele entrou no elevador e eu disse para mim que era só carregar no botão e estava no céu, ele tinha um ar bastante conservador, se calhar pensa que os elevadores são obra do diabo, eu estava com vontade de me despir á frente dele, de o provocar, a tentação também está num elevador, o padre parece que tem trinta anos, é magro de cara, uma cara de palerma, se eu fosse o cristo havia de cair da cruz de tanto rir. agora vou arrumar um pouco a casa, é mais dificil arrumar a vida, fiz um arranha céu de loiça, tantos os dias que fiquei sem vontade de arrumar ou lavar, a vantagem de viver sozinha ou a desvantagem, quero contar-vos que o poeta me tem feito propostas de casamento, não de um modo directo mas dá a entender, eu já tive muitos homens e ás vezes não sei se há muita diferença entre ser-se puta ou ser-se domestica, parece que somos todos grandes putas. até tu digo eu ao meu gato. se eu escrevesse um livro podia ser sobre a prostituição no reino animal. vou pois arrumar a casa. depois ponho-me a dormir, o gato costuma adormecer comigo, imagino ele a ter os meus sonhos e eu os dele, eu a ter os sonhos dele vou andar a cheirar a peixe e ele vai cheirar a puta, um gato a cheirar a puta. ainda estou a pensar no velho poeta, vou encontrar-me com ele e se ele falar embora disfarçadamente em casamento vai ficar a saber que sofro de uma doença incuravel que faz os homens infelizes. ainda tenho uma alma de puta, não é pelo dinheiro dos homens, é pelos segredos deles, na cama apanham-se muitos segredos de estado, o casamento é uma regra e eu quero dar-me selvagem, perceber a mentira e a ilusao dos homens. sei que exagero em relação ao homens, sei que quando nós mulheres nos demoramos com eles, quando permitimos que saia de dentro deles aquele orgulho de nos conquistarem como quem conquista o mundo, acho que as mulheres são conquistadas pela solidão deles. lembro-me de um cliente meu que pagava para falar da mulher e dos seus dois filhos, dizia que amava tanto a mulher que não a conseguia tocar, fizera com ela amor apenas duas vezes, depois pagava pela conversa e pelo sexo, outro dia vi-o de longe, estava com a mulher e os filhos, as crianças eram bonitas, penso que eram felizes, naquele dia fazia muito sol, ouvi-as gritar e parece que aquela vida se misturava no brilho do sol, era o sol a gritar com a vida, a pedir mais uns sorrisos, mais uma restea de vontade. olho á minha volta, parece que o rio afunda o passado, parece que me apetece uma sinfonia e que uma profunda tristeza é o vicio dos dias. fazis meses que a rosario morreu, de seu verdadeiro nome alberto, ainda tenho na minha mala de mão alem do verniz e do baton uma fotografia dela, sei que quando a mesma foi tirada tinha 14 anos, está vestido com uma saia escosesa e parece que tem na expressão dos olhos vontade de dançar, quando era criança andou a aprender balet com uma professora russa, como a família não tinha muitos recursos, uma senhora pagava-lhe as aulas, passados uns dias a senhora foi atropelada e o balet ficou esmagado nas rodas de um carro. quero eu dizer, atropelou-se uma grande oportunidade ou quem sabe a sua vida não seria o qwue tinha de ser, rosario tu eras uma pobre e já te imagino a dançares em pontas com o desiquelibrio do mundo. agora raras vezes encontro o velho poeta, ás vezes está sentado nas escadas da basilica da estrela, anda sempre com um caderno, já tentei ler a sua letra, parece caligrafia de médico, disse-me que esteve para estudar medecina, pensou ser médico dos olhos, confidenciou-me que gosta de olhos azuis, que gostava de ser o médico do mar e de tratar os olhos azuis do mar quando lhe aparecesse a doença da tempestade. eu fico a olhá-lo, parece que os poetas sao pessoas dificeis, as palavras não sao simples como as raizes que ficam na terra e dão sem explicação flores á disposição dos nosssos olhos, despeço-me dele e apanho o electrico, vou descendo a rua e reparo no fumo que sai de uma chaminés, parece a fábrica das nuvens, se calhar vai chover, depois fecho os olhos e adormeço um instante. a cidade movesse em mim tao intima e indiferente como as palavras fora dos livros e das pessoas. o poeta acena-me o acenar das suas mãos ondulam como asas e eu dou uma gargalhada e o mundo interior ri e desato a chorar. era como se tudo aquilo que tentasse reconstruir desabasse, acho que nao quero reconstruir coisa nenhuma, acho que não quero voltar ao começo, sempre que me apaixono, sempre que penso em alguem, sempre que fecho os olhos vejo mais nitido dentro de mim e ao mesmo tempo nao percebo nada. escrevo-te esta carta, na verdade ainda é um rascunho, o cesto dos papeis tem outras, parece que são bocados de vidas rasgadas, rasgadas mas não apagadas, a memória é uma doença que não se cura. ontem lembrei-me daquela tarde de Maio em que tentei o suicidio, lembro-me de ouvir a rosário contar que me fez beber azeite e que depois até parecia que tinha vomitado a criação, devo ter expulsado muitos demónios. o velho poeta quando lhe contei esta passagem da minha vida diz que a morte faz subir a febre á vida, eu penso que morrer é uma fuga, pelo menos aquela encenada pelas nossa vontade. sei que não tenho respostas, sei que do outro lado não existem segredos desvendados, filosofias á parte é dentro de ti e de mim para o mal e para o bem. eu maria, nascida em bragança, te dedico estas palavras e um dia se nos encontrar-mos vamos lembrar ou vamos esquecer, ou fazer o que for melhor para que o chão nao nos puxe os pés
lobo 05

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